Mais de 850 toneladas de lixo vão parar no rio Cuiabá

O rio Cuiabá deve receber aproximadamente 850 toneladas de lixo com a queda das primeiras chuvas na Baixada Cuiabana. Dessas, em torno de 340 toneladas são materiais flutuantes que serão levados pelas correntezas por longas distâncias, até serem retirados ou ficarem presos nas galhadas às margens do rio. A constatação foi feita pelo professor Rubem …

05/09/2010 19:16



O rio Cuiabá deve receber aproximadamente 850 toneladas de lixo com a queda das primeiras chuvas na Baixada Cuiabana. Dessas, em torno de 340 toneladas são materiais flutuantes que serão levados pelas correntezas por longas distâncias, até serem retirados ou ficarem presos nas galhadas às margens do rio.

A constatação foi feita pelo professor Rubem Mauro Palma de Moura, chefe do departamento de Engenharia Sanitária e Ambiental da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT). Segundo ele, o cálculo é feito com base na produção diária de lixo em Cuiabá, que é de 470 toneladas. “Falam que somente 5% deste lixo não é coletado, mas sabemos que o volume é bem maior que isso. Então, vamos considerar que 10% de todo esse lixo não é coletado, ou seja, 47 toneladas por dia que têm como destino as ruas, córregos e bocas-de-lobo”.

Dessas 47 toneladas, o especialista estima que 20% são levadas pelas águas das chuvas para os rios, o equivalente a 9,4 toneladas por dia. “Se levarmos em consideração que estamos 90 dias sem chuva, temos um acúmulo de 850 toneladas de lixo que irão para o rio quando caírem as primeiras chuvas na cidade”.

A realidade, segundo ele, está visível nos córregos da cidade, que estão repletos de lixo em suas margens, parados nas galhadas e tubulações. “Temos vários córregos que estão assim. É só dar uma olhada no Córrego do Barbado, Praeirinho e Gambá. As tubulações também estão entupidas de lixo e isso tudo vai para o rio com as primeiras chuvas”.

Cena que o pescador José Mauro, 53, está acostumado a ver. Ele pesca no rio Cuiabá há 12 anos e sempre, na época em que as chuvas começam a cair, percebe o aumento de lixo boiando nas águas. Até um sofá ele viu sendo levado pelas correntezas. “Lixo tem sempre, principalmente garrafa plástica e sacola. Mas quando chove é lamentável e o lixo acaba espantando os peixes também”.

Ele conta que, quando começou a pescar, todos os dias levava para casa de 1 a 2 sacos cheios de peixe. Hoje, vai cedinho para as margens do rio e, quando chega o final da tarde, carrega apenas meia dúzia de pescado. “Aí eu divido, um pouco como e o resto vendo”.

O colega de pescaria, Sebastião Rodrigues Maciel, 46, também revela a preocupação. “O lixo entope o berço do rio onde os peixes ficam e com isso eles também vão acabando”.

Ele conta que, por diversas, vezes, levou sacola para recolher o lixo que para nas margens. “Nós nos preocupamos. É preciso que alguém nos ajude e faça alguma coisa para salvar o rio Cuiabá”.

Dequada – Com a chegada das primeiras chuvas ribeirinhos e pescadores também acompanham o fenômeno conhecido por “dequada”. É um processo natural, que provoca alteração das características da água, como cor, odor, oxigênio dissolvido, gás carbônico dissolvido, pH, condutividade elétrica, nutrientes (nitrogênio, fósforo, carbono), demanda bioquímica de oxigênio, dentre outros.

Tudo isso é levado para o rio pelas chuvas, que vão lavando as áreas de mata e lavouras onde houve queimadas e decomposição de plantas. Dependendo da magnitude dessas alterações na água, pode provocar mortandade massiva de peixes.

Se não bastasse, outros produtos químicos levados das cidades também causam a morte dos peixes, mas de forma mais lenta. O pescador Sebastião Rodrigues conta que, principalmente a espécie Curimba, que fica nas áreas de lodo e é comum na região, está sendo ameaçada. “Eles ficam no lodo e acabam ingerindo esses produtos químicos”.

A ribeirinha Antônia Silva, hoje com mais de 60 anos, vê com tristeza essas mudanças. Por muitos anos ela acompanhou o marido nas pescarias e lembra com saudades do tempo em que ele saía cedo de casa e voltava com o peixe para o almoço. “Hoje isso não existe mais. Quando eu era pequena nós usávamos a água do rio para tudo, lavar roupa, fazer comida, banho e até para beber. Era muito limpa”.

Mudança – Para o professor Rubem Mauro, o triste cenário relatado pelos ribeirinhos é reflexo da falta de gestão e compromisso da própria população. “Não podemos culpar somente o poder público, sabemos que a população tem sua responsabilidade, porque alguém joga este lixo no local inadequado”.

Porém, segundo ele, esta prática só será mudada com investimentos na conscientização ambiental dos moradores. “Ao invés de destinar milhões em propagandas para enaltecer o nome de alguns, porque não destina esse dinheiro em ações educativas para orientar a população?”.