Construções do início do século XX retratam Missões Jesuítas em Mato Grosso

Campo Novo do Parecis, MT – Às margens do rio Papagaio, em Sapezal (480 km a Noroeste de Cuiabá), na área da aldeia Utiariti, dentro da reserva paresí Tirakatinga, as ruínas da missão Companhia de Jesus (jesuítas), que catequizavam crianças indígenas no Centro Oeste do Brasil, em Mato Grosso, remetem à antiga construção do início …

27/09/2010 09:03



Campo Novo do Parecis, MT – Às margens do rio Papagaio, em Sapezal (480 km a Noroeste de Cuiabá), na área da aldeia Utiariti, dentro da reserva paresí Tirakatinga, as ruínas da missão Companhia de Jesus (jesuítas), que catequizavam crianças indígenas no Centro Oeste do Brasil, em Mato Grosso, remetem à antiga construção do início do século XX e retratam costumes e modos de vida dos indígenas da etnia paresí e nambikwara e padres que lá chegaram desde 1930. Andando pelo local, a sensação é de resgate histórico. Impossível não imaginar os indiozinhos correndo pelo local, estudando nas salas de aula, os padres ensinando os ofícios, como marcenaria, serralheria, além das aulas de matemática, português e religião.

Muitas pessoas sequer sabem que nesta região existe tamanho reduto histórico-cultural, de fácil acesso, que constituem a história não só de Mato Grosso, mas também do Brasil, já que por muito tempo a história esteve restrita à ocupação no litoral brasileiro. O trajeto é feito de balsa de um lado ao outro da margem do rio Papagaio, entre as aldeias paresí e nambikwara.

Este resgate à cultura, à memória de um povo, às raízes foram um dos objetivos que levaram o Ponto de Cultura ‘Ninho do Sol’ em Campo Novo do Parecis (396 km a Noroesre da Capital) a encaminhar o projeto sobre a cultura local e a história da missão jesuíta na aldeia nambikwara, em Sapezal, para participar do documentário produzido pela revista de História da Biblioteca Nacional. A revista tem registrado a cultura dos povos em 12 Pontos espalhados pelo Brasil, a fim de resgatar a história que, muitas vezes, são desconhecidas pelos moradores das próprias cidades. A intenção é tornar público por meio de imagens os registros de pessoas que fizeram parte de marcos históricos da biografia do Brasil e fazer assim, um arquivo com este rico material.

A historiadora e professora de História, Patrícia Woolley, acompanhou a equipe da revista da Biblioteca Nacional e disse que estar nas ruínas das missões jesuítas é reviver um pedaço da história do Brasil. “Essa região, o Norte de Mato Grosso, tem um povoamento recentíssimo. Campo Novo do Parecis, por exemplo, data da década de 70. Então durante muito tempo isso aqui era terra ‘dos’ índios e não ‘de’ índios. Aqui é um pedaço da história do Brasil, porque ela foi sendo construída assim, aos poucos. Estar aqui é reviver um pouquinho dessa ocupação. Me sinto muito privilegiada por estar aqui”, disse Patrícia.

A preocupação com o resgate da memória não é característica do povo brasileiro, segundo Patrícia Wolley, que explicou ser esse um dos motivos de estarem em terras mato-grossenses realizando o documentário. A parceria entre o Ministério da Cultura, a revista de História da Biblioteca Nacional, Ponto de Cultura de Campo Novo do Parecis, procura resgatar a memória do local. “O nosso objetivo é despertar nos próprios moradores que a região deles tem uma história e isso não pode ser esquecido. As pessoas têm que valorizar isso, porque o ser humano não é só material, ele precisa conhecer suas raízes. Nosso objetivo é despertar para a consciência de suas origens de Mato Grosso, como a história da região se desenvolveu”, explicou.

Com a visita em Mato Grosso a historiadora disse ter ficado feliz porque a recepção foi muito boa e se surpreendeu com o engajamento da população de Campo Novo do Parecis, do Ponto de Cultura. “É impressionante como eles estão se mobilizando não só pra resgatar a história da região, mas inclusive pra despertar isso nos alunos da rede pública. Eles oferecem oficinas de dança, oficinas culturais. Uma iniciativa que parte da própria região, dos moradores, do Ponto de Cultura”, ressaltou ao complementar que se não houvesse esse engajamento por parte do Ponto talvez não estariam na cidade, “porque foram eles que mandaram o projeto que gostariam de participar desse registro, do documentário que está sendo feito em vários pontos do Brasil. Falta esse tipo de interesse, de mentalidade no nosso país”, concluiu.