Brics e Europa se unem contra os EUA

O chamado que será proposto será um recado direto ao governo dos Estados Unidos, depois que o Fed anunciou a injeção de US$ 600 bilhões em sua economia. A medida gerou críticas de emergentes e europeus. Neste fim de semana, porém, o presidente do Fed, Ben Bernanke, defendeu a decisão de injetar liquidez no mercado. …

08/11/2010 10:51



O chamado que será proposto será um recado direto ao governo dos Estados Unidos, depois que o Fed anunciou a injeção de US$ 600 bilhões em sua economia.

A medida gerou críticas de emergentes e europeus. Neste fim de semana, porém, o presidente do Fed, Ben Bernanke, defendeu a decisão de injetar liquidez no mercado.

A partir de hoje, na Coreia do Sul, começa a fase final da negociação do texto da declaração final da cúpula. Ontem, ativistas coreanos tomaram as ruas e a polícia de Seul foi obrigada a usar força e até gás de pimenta para dispersar os manifestantes.

Fontes próximas à negociação confirmaram que o apelo para um reforço da mensagem contra atitudes como a dos Estados Unidos será um dos principais pontos de atuação das diplomacias da Europa, China, Rússia, Índia e Brasil. A ofensiva tem como meta a de tentar obrigar governos a coordenar suas políticas, além de forçar muitos a desenvolver estratégias de recuperação que considerem a situação dos demais países.

Negociadores mais irônicos chegam a afirmar que finalmente os Brics e a Europa começaram a se entender dentro do G-20, ainda que seja para atacar de forma unânime os Estados Unidos. “Isso está parecendo mais um G-19 contra 1 que o G-20 harmonioso e confiante que víamos há dois anos”, disse uma fonte próxima à negociação. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), uma ação coordenada do G-20 para salvar a economia mundial poderia gerar 52 milhões de empregos no médio prazo. Mas a constatação é de que a lua de mel no G-20 é coisa do passado.

De fato, a pressão sobre os americanos começou no fim de semana. Bancos centrais de todo o mundo pedem do Fed uma explicação sobre sua decisão. A medida, para muitos, ameaça fortalecer o risco de uma bolha de ativos nos mercados emergentes, já que a experiência nos últimos dois anos revelou que a injeção de liquidez na economia americana não está sendo absorvida e os recursos acabam aquecendo o fluxo de capital especulativo nos mercados emergentes.

Desde ontem, os xerifes das finanças internacionais estão reunidos na Basileia, num encontro que promete ser um ensaio para a tensão na cúpula do G-20, na quinta-feira, em Seul. “O que foi feito precisa ser explicado”, cobrou um alto funcionário do BC argentino. “Há muitos países irritados e o clima não é bom”, admitiu. Henrique Meirelles, presidente do BC, é o representante brasileiro na reunião.

Traição. Do lado europeu, banqueiros ressaltam não entender como é que os Estados Unidos tomaram tal rumo, poucas semanas depois de assinar uma declaração entre ministros de Finanças em que ficava claro que governos serão “vigilantes” em relação ao impacto de suas medidas nos demais parceiros. O comportamento americano chega a ser classificado de “traição”. Agora, Berlim e Paris insistem que precisam de garantias políticas de que tais práticas não vão se repetir. “A pressão será forte sobre os Estados Unidos no G-20”, admitiu um dos presidentes de BC de um país escandinavo.

Do ponto de vista americano, seus representantes também negam que tenham violado o espírito da declaração dos ministros. Washington não acredita que o impacto de suas medidas seja profundo no fluxo de capitais aos emergentes e insiste que é do interesse de todos ver a maior economia do mundo crescer.

“Não estamos tentando criar inflação. Nosso objetivo é o de dar estímulo adicional para ajudar a economia a se recuperar e evitar a desinflação potencial”, explicou Bernanke. “Acho que todos concordam que isso seria o pior resultado.” Ele alertou que a economia americana sofreu uma “desinflação significativa” desde o começo da crise.

Alguns BCs concordam com Bernanke. “Precisamos da economia americana forte e com sinais de recuperação”, admitiu Mohamed Al Jasser, governador do BC da Arábia Saudita. “Entendo que Brasil e outros mercados estejam preocupados. Mas temos de pensar qual outra medida os americanos têm hoje para relançar sua economia”, afirma.

Mas a tese não tranquilizou os emergentes nem a Europa. Há alguns dias, o governo alemão de Angela Merkel já havia alertado que a atitude do Fed “apenas criava problemas extras ao mundo”. Merkel deve ser uma das vozes mais duras contra os Estados Unidos.

Superávit. Alemanha, Brasil e China ainda vão voltar a rejeitar os planos americanos de criar um teto para superávits de países. A proposta do Fed era de que esse teto seria de 4% dos PIBs nacionais, num esforço para equilibrar as contas do planeta. Negociadores, porém, garantem que Brasil, os demais países do Bric e Europa bloquearão qualquer tentativa dos americanos de recolocar o tema na agenda.

Pequim, Berlim e Brasília defenderão a tese da redução dos déficits públicos como maneira de equilibrar as contas, algo que já havia sido fechado na cúpula do G-20, em Toronto.