Robert Benton: um mestre esquecido

Robert (Douglas) Benton (1932-), um dos diretores cinematográficos de boa cepa, completou há quatro meses 78 anos de lucidez intelectual e competência técnica para fazer cinema. Justa homenagem lhe prestaram em sua data de aniversário os amigos e admiradores, nestes incluídos naturalmente roteiristas, escritores, diretores de fotografia, músicos, atores, editores e até veteranos cineclubistas nova-iorquinos, …

24/01/2011 08:38



Robert (Douglas) Benton (1932-), um dos diretores cinematográficos de boa cepa, completou há quatro meses 78 anos de lucidez intelectual e competência técnica para fazer cinema. Justa homenagem lhe prestaram em sua data de aniversário os amigos e admiradores, nestes incluídos naturalmente roteiristas, escritores, diretores de fotografia, músicos, atores, editores e até veteranos cineclubistas nova-iorquinos, bem assim críticos de renome como Leslie Halliwell, do “Hallliwell´s Film Guide”, Richard Corliss da “Time” e Toddy McCarthy, de “Variety”, entre outros
Hoje cuidamos de prestar também um tributo a quem muito deve o cinema moderno, mesmo quando não se trate de um cineasta campeão de bilheteria ou de filmes em 3-D ou de muito tiroteio e videoclipagem.
De há muito estávamos devendo um artigo sobre o “metteur-en-scène” de “Kramer vs. Kramer”, “Fugindo do Passado” (Twilight) e de “Revelações” (The Human Stain), para citar apenas três títulos de seu valioso acervo vindos à lembrança. Poucos, aliás, para quem, como crítico e cinéfilo, viu e reviu todos os filmes de Benton e teve a chance de ler alguns dos seus escritos. Servimo-nos, pois, do espaço deste “Caderno de Cultura” para enfocar a trajetória do cineasta desde seu primeiro curta-metragem até os dias de hoje, quando ainda se dispõe a dirigir filmes sobre temas do nosso tempo imprevisível. Fazemo-lo assim de modo a transmitir ao leitor fã de cinema uma visão crítica dos filmes de Benton e de como o “filmmaker” americano trabalha a imagem no tempo e o tempo na imagem, enquanto transmite a sua impressão de realidade no cinema via significantes visuais e perfeita interação dos ritmos externo e interno.
 
Como tudo começou
Robert Benton, de família da classe média, nasceu em Waxahachie, próximo de Dallas, Texas, onde estudou na escola pública. Na pré-adolescência Bob teve problemas de dislexia, condição na qual a pessoa consegue ler e entender mas experimenta desagradáveis sensações de lentidão e cansaço. Superado o problema tempos depois, graças à atuação de clínica especializada, Benton se distinguiu ao longo da High School como um dos seus melhores alunos, máxime quando os textos de sua lavra recebiam elogios dos professores. Benton diplomou-se depois em Artes pela Universidade do Texas, quando teve oportunidade de assistir a alguns filmes e participar de debates em cineclubes. Impressionou-o a importância e as possibilidades da arte das imagens em movimento e de como determinados enfoques dramáticos podem enriquecer os filmes e a própria narrativa.
Em 1953, aos 21 anos, Benton mudou-se para Nova Iorque a fim de estudar na Universidade de Colúmbia, pois há tempos cogitava de respirar novos ares e sentir a pulsação da metrópole e da Times Square, quando conheceria o Museu de Arte Moderna. e o Museu Guggenheim, é onde se abriga toda a coleção de arte moderna do finado Solomon R. Guggenheim. Sua concepção arquitetônica impressiona quem o vê pelo desvio radical do tradicional “design” dos museus. Benton também queria conhecer a vida em Greenwich Village, uma divisão de Manhattan freqüentada especialmente por artistas e estudantes de várias esferas.
 
Da “Esquire” para a Tela
Lá pelas tantas Benton decidiu abandonar seu curso universitário para trabalhar como assistente de direção da “Esquire”, uma das mais prestigiosas revistas dos EUA. Chegou a substituir algumas vezes o editor-chefe, quando este reconheceu sua fluência narrativa, elegância e habilidade em redigir textos de ordem vária e entrosar-se como poucos no corpo redatorial da revista. Tornou-se Conselheiro Editorial da publicação aos 30 anos, em 1962, e começou a tentar uma carreira profissional como escritor, pois Benton sentia ter afinidades para contar histórias e elaborar situações e conflitos da vida real e seu desfecho. Nessa posição, Benton passou mais dois anos, depois decidiu abandonar a “Esquire” e trabalhar com o escritor David Newman (1937- ), com quem fizera boa amizade e juntos resolveram escrever roteiros para o cinema. De resto, em sua maioria, esses “scripts” da dupla foram muito bem recebidos, primeiro por produtores e depois pelo publico. Assim ocorreu com “Uma Rajada de Balas” (Bonnie & Clyde, 1967), sob direção de Arthur Penn (poucos sabem, mas o “nouvelle vagueur” François Truffaut havia sido convidado para dirigir o filme e não pôde fazê-lo devido a uns compromissos inadiáveis surgidos na última hora; teria sido interessante ver como um mestre francês dos melhores se teria saído dessa empreitada em Hollywood). O filme de Penn foi indicado para o Oscar de 1967, seguindo-se-lhe “Ninho de Cobras” (There Was a Crooked Man, 1970), de Joseph Mankiewicz, “Esta Pequena É uma Parada” (What´s Up, Doc, 1972), de Peter Bogdanovich, e “Superman, o Filme” (Superman, 1978), de Richard Donner. Com a colaboração de Benton, Newman e Mario Puzo nasceu o magistral sucesso de “O Poderoso Chefão” (The Godfather, 1972), do eficiente Francis Ford Coppola.
 
Por Trás Das Câmaras
A frutífera cooperação de Benton e Newman prolongou-se por muitas peças e “screenplays”antes de se separarem como amigos em 1970, quando Benton se voltou para a direção de filmes. Newman continuou escrevendo com outros parceiros até fins desse ano, quando foi trabalhar com sua mulher Leslie, colunista de receitas culinárias, mas com reduzido êxito de vendas. Daí voltou a escrever novos roteiros para o ecrã. Antes de atuar como diretor cinematográfico, Benton serviu ao exército por um período, como pintor de diorama, definido o termo ora como uma cena em miniatura reproduzida em três dimensões, colocando-se as figuras antes de um fundo pintado, ora como um quadro iluminado por luz móvel para produzir ilusão óptica. Fazemos essa observação porque Benton sempre considerou o cinema como uma extensão da pintura. Seu filme de estréia foi um curta-metragem escrito e dirigido por ele em p&b intitulado “A Texas Romance in 1909”, de uns 30 minutos mais ou menos, mostrado aos amigos e por eles elogiado.
Oito anos depois estreou nos longas com “Má Companhia” (Bad Company, 1972), seguindo-se-lhe “A Última Investigação (The Late Show, 1977), “Na Calada da Noite” (Still of the Night, 1982), “Kramer vs. Kramer” (1979), “Um Lugar no Coração” (Places in the Heart, 1984), “Um Amor à Prova de Balas” (Nadine, 1987); “O Mundo a seus Pés”(Billy Bathgate, 1991), “O Indomável” (Nobody´s Fool, 1994), “Fugindo do Passado” (Twilight, 1998), “Revelações” (The Human Stain, 2003), e “Banquete do Amor” (Feast of Love, 2007). Em todos os citados longas Benton atuou também como roteirista ou co-roteirista, às vezes até como produtor executivo. Analisaremos depois, de forma sucinta, cada um dos filmes dirigidos por Benton, sem esquecermos os roteiros escritos por ele, como o de “O Perigoso Adeus” (The Long Goodbye, 1973), de Robert Altman, e o de “A Arte de Matar” ou “A Morte Inevitável” (The Big Sleep, 1978), de Michael Winner. Um ano antes Benton atuou como produtor do citado “A Última Investigação” (The Late Show, 1977), dirigido por ele mesmo com mão de mestre, quando chamou atenção da crítica.
Durante o tempo no qual se tornou diretor de arte da revista (1958-1972), Benton foi co-autor de algumas obras, como “The IN and OUT Book” (1959), um guia para pessoas sofisticadas da cidade, e “The Worry Book” (1962), no qual discorre com inteligência sobre as preocupações do dia a dia e a forma de minimizar as dificuldades e não ficar obcecado com os problemas do amanhã. Também escreveu um livro para crianças, “Little Brother No More” (1960), ilustrado aliás pela pintora Sally Rendigs, com quem Benton se casaria em 1964.
Estas e outras considerações feitas até agora abrem caminho para comentarmos toda a filmografia de Benton, mesmo quando ele nem sempre pôde impor sua direção estética como a isso se referiu o exigente crítico inglês Nigel Andrews na revista “Sight & Sound” (Winter 1972/3). Para quem critica parece sempre fácil enxergar algum deslize ou desvio da rota. Em qualquer filme, como sabemos, algo pode sair errado, embora o conjunto da realização não tenha sido abalado por isso em termos de qualidade fílmica. Para outros críticos, no entanto, “Má Companhia”excedeu as expectativas do diretor.