Pesquisadores avaliam novas fontes de etanol

O Brasil poderá contar, em alguns anos, com novas fontes para produção de etanol, que tem como matéria-prima, basicamente, a cana-de-açúcar. A Embrapa Cerrados – unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, localizada em Planaltina (Distrito Federal) – coordena, desde o ano passado, pesquisas para avaliar fontes de biomassa que podem ser usadas para produzir …

01/02/2011 09:41



O Brasil poderá contar, em alguns anos, com novas fontes para produção de etanol, que tem como matéria-prima, basicamente, a cana-de-açúcar. A Embrapa Cerrados – unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, localizada em Planaltina (Distrito Federal) – coordena, desde o ano passado, pesquisas para avaliar fontes de biomassa que podem ser usadas para produzir o chamado etanol de segunda geração. O objetivo é dominar novas tecnologias para a produção do bioetanol e tornar o País referência mundial no assunto.

As pesquisas da Embrapa Cerrados avaliam o uso de gramíneas forrageiras (usadas na alimentação animal), sorgo, bagaço e a palhada da cana. Também há estudos com espécies de árvores (pinus, eucalipto) e duas espécies da Amazônia: tachi-branco e paricá, como fontes alternativas de biomassa para produção de etanol.

O etanol produzido da cana-de-açúcar é obtido pela fermentação de açúcares presentes no caldo, obtido pela moagem da planta. Como resultado dessas pesquisas, a perspectiva é que açúcares complexos, como a celulose e hemicelulose existentes na composição das plantas, possam também ser convertidos no etanol de segunda geração.

De acordo com o pesquisador da Embrapa Cerrados Marcelo Ayres, que coordena o trabalho, a escolha das espécies para o estudo buscou contemplar plantas mais adaptadas às condições da região do Cerrado e que apresentem grande potencial de produção de biomassa. Outra vantagem é que já existem estudos anteriores que indicam o manejo desses cultivos.

No caso das gramíneas forrageiras, por exemplo, a Embrapa lançou cultivares de braquiária, como a cultivar Marandu, que ocupa mais de 30 milhões de hectares no Brasil. “Ela é muito adaptada às condições climáticas do Cerrado e pode ser plantada até mesmo onde a cana não pode”, explica Ayres.

O processo de produção do etanol de segunda geração é composto por duas etapas. Na primeira delas, as longas cadeias de celulose e hemicelulose são quebradas – por hidrólise enzimática ou química – para chegar a açúcares com cinco ou seis moléculas de carbono. Em uma segunda etapa, os açúcares reduzidos obtidos no processo de hidrólise são fermentados, assim como ocorre com a sacarose da cana-de-açúcar. Esse é o procedimento que os cientistas devem percorrer até chegar ao etanol. No entanto, a prática ainda é um desafio.

“O mundo inteiro está trabalhando para definir quais as fontes e os processos a serem usados”, comenta Ayres. Para ele, em relação a outras nações que estão na corrida para desenvolver a tecnologia do etanol de segunda geração, o Brasil tem a vantagem de estar em uma área tropical, o que favorece o desenvolvimento de biomassa.

Para Marco Aurélio Lima, diretor do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol, o Brasil precisa ampliar investimentos na agricultura de precisão para melhorar ainda mais o que já vem fazendo bem: o plantio de cana-de-açúcar voltado à produção de etanol.

Produtividade alta

Quanto à produtividade, Lima acredita que o Brasil fez a lição de casa e conseguiu dobrar a capacidade de retirar o etanol de um hectare de terra desde o início do Proálcool (Programa de substituição em larga escala dos combustíveis veiculares derivados de petróleo por álcool, financiado pelo governo a partir de 1975). O desafio é ampliar a produção em grande escala o suficiente para atender, inclusive, às demandas internacionais.

Para isso, os pesquisadores se debruçam nos estudos, em especial, sobre o etanol celulósico (ou de segunda geração), que utiliza o bagaço e a palha da cana. Hoje, o álcool/etanol é originado da fermentação do caldo da cana, mas o uso dos açúcares presentes nas outras partes da planta exige novos processos tecnológicos. “Temos que estudar melhor a fotossíntese da cana, que é uma planta com cara brasileira e precisa ser entendida melhor em todo o seu processo de formação porque, se queremos desconstruir a cana, é bom que saibamos como ela é construída”, resume Lima.

A conta cara do petróleo

Na década de 1970, motivado pelo peso da conta petróleo na balança de pagamentos do País, o governo federal lançou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), definindo claramente uma estratégia de médio e longo prazo, permitindo que o setor privado investisse no aumento da produção e no desenvolvimento da cadeia. À época, o Brasil importava mais de 80% do petróleo que consumia; havia a questão de segurança energética e o fato de a indústria canavieira estar com capacidade instalada ociosa.

Contudo, com o aumento da produção interna de petróleo e com a queda de seus preços internacionais, em meados da década de 1980, o governo reduziu sua interferência neste mercado, desmotivou a produção de etanol e gerou um quadro de dificuldades que encerrou a fase de expansão do Proálcool. Em 1986, o governo federal retirou o subsídio ao álcool, o que reduziu a rentabilidade média da agroindústria canavieira e estimulou ainda mais o uso da cana para a fabricação de açúcar para exportação.