Abrolho é um espetáculo da natureza

O catamarã avança em alto-mar quando um dos tripulantes grita a senha esperada: baleia à vista! O barco reduz a velocidade. Todos sobem ao convés, olhos atentos, câmeras preparadas, clima de suspense. De repente, a jubarte aparece e, num salto, projeta quase todo o corpo para fora da água. Alguém solta uma palavra impublicável. A …

04/02/2011 15:21



O catamarã avança em alto-mar quando um dos tripulantes grita a senha esperada: baleia à vista! O barco reduz a velocidade. Todos sobem ao convés, olhos atentos, câmeras preparadas, clima de suspense. De repente, a jubarte aparece e, num salto, projeta quase todo o corpo para fora da água. Alguém solta uma palavra impublicável. A grandalhona então, seguida de perto pelo catamarã, dentro de um limite de segurança, segue com novos saltos por mais alguns minutos para o delírio de todos à bordo até finalmente se cansar e nadar na direção do horizonte. Você já pode ter visto um show de baleia em algum parque aquático mundo afora, mas ver uma cena dessas na imensidão selvagem do mar não é a mesma coisa.

O espetáculo das baleias jubarte acontece todos os anos entre os meses de julho e dezembro quando esses grandes mamíferos marinhos chegam aos montes, vindos da Antártica, para acasalar e reproduzir nas águas mornas de Abrolhos, no extremo sul da costa da Bahia. Quase extintas das águas brasileiras na década de 1970, após décadas de matanças indiscriminadas, a população de baleias vem aumentando naquela região desde que a pesca foi oficialmente proibida no país em 1986. Hoje, segundo pesquisas do Instituto Baleias Jubarte, que monitora os animais nas águas brasileiras, estima-se que cerca de 3 mil jubartes estejam no litoral sul baiano nesta temporada.

São tantas que os barcos que seguem a Abrolhos costumam encontrar dezenas delas pelo caminho. E os encontros são sempre emocionantes. De quebra, o passeio ainda garante aos turistas topar com as belas paisagens submarinas do arquipélago, que é considerado um dos paraísos do mergulho no Brasil, tanto para a prática de snorkelings como em mergulhos autônomos, além da oportunidade de admirar uma fauna difícil de ser encontrada num mesmo lugar, que além das jubartes inclui golfinhos, tartarugas, peixes grandes como Barracudas e Meros. Todos vivendo em torno de cinco pequenas ilhas vulcânicas a 70 km da costa, ou a três horas de navegação, em média.

Abrolhos é o primeiro Parque Nacional Marinho brasileiro, criado em 1983 para proteger uma bancada rasa de recifes de corais, que era o terror para os navegadores do passado. Coube ao navegador Américo Vespúcio, na segunda expedição portuguesa ao Brasil, em 1503, fazer a primeira menção escrita àquele conjunto de ilhas ao escrever no diário de bordo: “quando aproximares da terra, abre os olhos…”. Daí o nome Abrolhos, numa leitura em caprichado sotaque lusitano.

Caravelas e Prado

Para ir ao arquipélago é preciso passar primeiro por Caravelas, que fica a quatro horas de carro (280 km) de Porto Seguro, onde está o aeroporto mais próximo. Trata-se de uma pequena e modesta cidade de pescadores, com mais traineiras e canoas ancoradas no cais do que carros circulando pelas poucas ruas. O centrinho não fica à beira-mar, mas de frente para o Rio Caravelas, que naquele trecho alarga-se ao receber as águas de uma dezenas de outros rios formando um estuário com estensa área de manguezal, transformada em área de preservação ambiental em 2009. As praias estão alguns quilômetros adiante, nos povoados de Ponta de Areia e Barra, que fazem parte do município, mas a água turva não é das mais convidativas da Bahia.

O litoral sem graça é o fator que melhor explica a falta de infra-estrutura turística em Caravelas, que conta apenas com uma única pousada na cidade, o Marina Porto Abrolhos. Não há quase nada a fazer na cidade a não ser visitar o pequeno centro histórico, que infelizmente está cheio de casarões abandonados e mal conservados, e conhecer o núcleo de visitantes do Parque Nacional Marinho de Abrolhos, que vale tanto pela exposição de fotos ao lado de uma réplica em tamanho original de uma baleia jubarte, como também pela simpatia da Geovana, monitora do Ibama, que dá explicações aos turistas que chegam.

Na vizinha Alcobaça as condições de mar são parecidas, embora a orla seja mais urbanizada, com calçadão e algumas barracas. Só a partir de Prado, a chamada Costa das Baleias começa a ficar realmente interessante. Em direção às praias do norte de Prado há uma sequência de 30 km de faixas de areia desertas, cercada por altas falésias, até a vizinha vila de Cumuruxatiba. Uma estrada de terra cênica corre rente a costa e exibe altos visuais a cada meia-dúzia de curvas, com destaque para as praias do Tororão e Japara Grande. O mar naquele trecho já não sofre mais com os sedimentos do Estuário do Caravelas e a água é nitidamente mais fotogênica. Por conta disso, muita gente opta em montar base em Prado, que também tem maior oferta de pousadas, antes de seguir para Abrolhos.

Barco para Abrolhos

Há dois tipos de passeios para Abrolhos oferecidos pelas operadoras de Caravelas: o bate-e-volta, realizado em lanchas rápidas, e o chamado live aboarding, com catamarãs que permanecem de dois a três dias no arquipélago percorrendo diversos pontos de mergulho. É realizado em embarcações maiores com estrutura para pernoites, pois oferece cabines duplas e refeições à bordo.

A maioria dos visitantes prefere fazer o bate-e-volta mesmo, que sai de manhã cedo e retorna no final do dia. É cansativo por conta do tempo de navegação – em torno de 5 horas contando a ida e a volta – mas permite ver baleias pelo caminho, fazer snorkeling à beira dos costões das ilhas, almoçar e ainda caminhar na trilha da Ilha da Siriba ao lado de dezenas de atobás. Às vezes o tempo vira e o vento obriga as operadoras a cancelarem as saídas das lanchas.

Já o live aboarding é opção dos mergulhadores, já que os barcos contam com todo o equipamento necessário para a prática da atividade. É o caso do Andarilho, a mais recente aquisição da agência Horizonte Aberto, que acomoda até 12 pessoas, além da tripulação e dois instrututores que acompanham os grupos. Não há luxo algum à bordo. As cabines e os banheiros são bem apertados, mas todo o inconveniente desse tipo de viagem embarcada o arquipélago devolve com belezas naturais de sobra.

Abrolhos tem quase tudo o que os mergulhadores mais gostam: mar calmo, pouca profundidade, muita vida marinha, além de diversos naufrágios. A visibilidade das águas não é ponto forte. Ainda que atinja cerca de 25 metros no auge do verão, nem se compara com Fernando de Noronha, com quase 40 metros de visibilidade. A água um pouco mais turva, no entanto, garantiu que as formações de corais chamadas Chapeirões ganhassem tamanhos gigantescos ao crescer em direção da luminosidade das águas mais rasas. Os Chapeirões tem formato de cogumelo e podem chegar a quase 20 metros de altura. Neles, são facilmente encontrados o coral-cérebro, espécie endêmica da região que não existe em nenhuma outra parte do planeta.

Mergulhadores avançados podem fazer ainda mergulhos noturnos, com laternas para observar os exóticos animais marinhos que saem na escuridão da noite. Já quem nunca nem vestiu uma máscara de mergulho na vida também pode sentir a experiência de fazer um passeio subaquático com equipamento de cilindro fazendo um mergulho de batismo, no qual a pessoa submerge segura o tempo todo pelo instrutor. Ou então fazer snorkeling em diversos pontos próximos aos costões das ilhas, para ver peixes coloridos, ouriços, corais e, com um pouco de sorte, até tartarugas.

O desembarque em Abrolhos só pode ser feito na Ilha da Siriba, que é tomada pelos atobás, quem nem se incomodam com a presença das pessoas. Como os pássaros fazem os ninhos no chão, só é permitido caminhar numa trilha demarcada. Também é possível desembarcar na ilha de Santa Bárbara, mas só com prévia autorização da marinha, que mantém um antigo farol construído em 1861 para orientar os navegadores naquelas águas traiçoeiras para as embarcações por conta dos bancos de corais.

Quem participa dos passeios de live aboarding tem o privilégio de ver Abrolhos de muitos ângulos diferentes, podem acompanhar a algazarra dos atobás em voos rasantes à beira dos costões, assistir ao entardecer belíssimo e ainda observar o céu estrelado em pleno alto-mar.

Abrolhos é para quem busca algo mais do que uma mera beira de praia para petiscar ou jogar frescobol, coisas que por lá não há. É para quem busca uma experiência mais intensa com o oceano e quer viver a emoção do encontro com as grandes jubartes no ambiente natural. Que o diga o pescador Manoel Sampaio, de Linhares-ES, que sempre sonhou em ir pra lá, mesmo sem saber exatamente o motivo. O pescador não lembra a própria idade, “oitenta e lá vai pedrada, tem que olhar no documento”, mas nunca esqueceu as histórias contadas pelos mais velhos sobre as grandes baleias e as maravilhas de Abrolhos. Em agosto, esteve lá, finalmente, pela primeira vez, a contemplar o entardecer sentado ao pé do farol. Na ocasião, o pescador capixaba não falou quase nada, mas pelo semblante parecia entender que um lugar daqueles não se encontra assim em qualquer esquina.

Quando Ir

Para ver as baleias jubarte é preciso ir a Abrolhos entre julho e novembro, época em que quase 3 mil desses grandes mamíferos marinhos chegam da Antártida para reproduzir e acasalar nas águas mornas da costa sul da Bahia.