Alta de juros nos EUA tem efeito global

Alta de juros nos EUA reduz liquidez global com recuo das bolsas no mundo, dólar fecha em alta, petróleo em queda mas favorece exportações brasileira em atual cenário. O sintoma clássico do movimento de alta de juros nos Estados Unidos é a tendência mundial de valorização do dólar em resposta à maior atratividade dos ativos de …

19/05/2016 17:52



Alta de juros nos EUA reduz liquidez global com recuo das bolsas no mundo, dólar fecha em alta, petróleo em queda mas favorece exportações brasileira em atual cenário.

O sintoma clássico do movimento de alta de juros nos Estados Unidos é a tendência mundial de valorização do dólar em resposta à maior atratividade dos ativos de uma das mais importantes e seguras economias do planeta.

A princípio, esse efeito colateral acena negativamente para países emergentes com a possibilidade de saída de aportes estrangeiros em busca de investimentos mais seguros nos Estados Unidos.

“Haverá atração maior de capital externo em dólar para os Estados Unidos e os rendimentos das Treasuries [taxa de juros dos títulos da dívida do governo dos EUA] ficam melhores”, afirma Eduardo Velho, economista-chefe da INVX Global Partners.

No entanto, a propensão ao encarecimento do dólar deve trazer benefícios para um dos poucos segmentos que ainda respiram em meio à recessão brasileira: o setor externo.

As seguidas quedas do dólar – de quase 10% no acumulado de 2016 – já suscitam preocupação nos exportadores e o Banco Central tem atuado constantemente no mercado com leilões de swap reverso – equivalente a uma compra de dólares no futuro – na tentativa de estimular a alta da moeda norte-americana.

Com o aumento de juros, a tendência mundial de valorização do dólar será natural, facilitando a tarefa de manter a cotação acima de R$ 3,50 – piso psicológico com o qual o mercado crê que o BC trabalha.

“O real se valorizou bastante e ameaça o que ainda está funcionando que é o ajuste externo, com a retomada de exportações”, diz Silvio Campos Neto, economista-sênior da Tendências Consultoria.

Até a segunda semana de maio, o saldo acumulado pela balança comercial brasileira no ano estava positivo em US$ 16,2 bilhões. A desvalorização recente tornou os produtos brasileiros mais competitivos para os estrangeiros e o reduzido apetite interno derrubou as importações. No entanto, cotação abaixo de R$ 3,50 poderia mudar essa proporção e as importações ficariam mais atrativas e as exportações menos, colocando em risco o saldo positivo do setor externo.

“O aumento de juros pode estancar um pouco o processo de valorização do real ante o dólar”, acrescenta Campos Neto.

Do outro lado, o Brasil não precisará dar adeus aos investimentos estrangeiros. “As taxas no Brasil estão muito atrativas. Os Estados Unidos não farão um aperto de juros tão forte que reduza a competitividade brasileira”, afirma Velho.

Tampouco o aumento do dólar deve voltar a ser um problema para a inflação. Campos Neto projeta que o dólar encerre o ano em R$ 3,72. A alta deve ser suficiente para proteger o setor externo sem afetar negativamente a inflação, avalia o economista.

Entretanto, esse patamar pode ser superado caso os problemas fiscais que o Brasil enfrenta não sejam solucionados rapidamente. “Depende do encaminhamento das mudanças internas, de melhorar o quadro fiscal. Temos o risco de retomada de tensões e o dólar subir além do que imaginamos”, observa o economista da Tendências.

Velho avalia que aumentou a percepção dos investidores de que os desafios fiscais, especialmente o déficit das contas públicas, são maiores do que o esperado. “Dólar e juros estão mais dependentes das condições domésticas do que internacionais”, diz.

Campos Neto prevê que prejuízo para o Brasil com o aumento dos juros deve ficar com a elevação do custo do financiamento para empresas e também para o governo.

BC dos EUA

O aumento dos juros nos Estados Unidos já era esperado pelos mercados. No entanto, o Fed sinalizou em ata divulgada na quarta-feira (18) que essa elevação pode ocorrer antes do que os investidores esperavam.

De acordo com a Bloomberg News, a aposta do mercado mostra chance de alta no mês que vem em 32%, ante 12% antes da ata do Fed. A probabilidade de alta em setembro também subiu com a ata e passou de 47% para 62%.

“Em algum momento o Fed iria retomar o processo de normalização monetária. Ainda acreditamos que acontecerá entre julho e setembro”, afirma Silvio Campos Neto, que espera dois aumentos de 0,25 ponto percentual para os juros dos Estados Unidos, sendo o último deles em dezembro.

Dólar  cotado a R$ 3,57, com recuperação do petróleo

O dólar fechou em leve alta nesta quinta-feira após os preços do petróleo reduzirem as perdas, amenizando um pouco o mau humor nos mercados globais que levou a moeda norte-americana a superar R$ 3,60 durante a sessão.

O dólar avançou 0,20%, a R$ 3,5702 na venda, após chegar a subir mais de 1,5% e atingir R$ 3,6195 na máxima deste pregão. O dólar futuro recuava 0,08% no final da tarde.

Ibovespa fecha pelo terceiro dia consecutivo de perdas da bolsa

A Bovespa fechou no vermelho pelo terceiro pregão seguido nesta quinta-feira, contaminada pela cena externa desfavorável – taxa de juros dos EUA – conforme investidores seguiram digerindo as recentes mensagens do Federal Reserve no sentido de uma alta dos juros mais cedo do que vinha sendo precificado pelo mercado financeiro.

De acordo com dados preliminares, o Ibovespa caiu 0,91%, a 50.099 pontos. O volume financeiro do pregão somava R$ 5,5 bilhões.

 

Da Redação com informações dos jornalistas especialista no mercado, Weruska Goeking em O Financista, Paula Arend Laier e Bruno Federowski Agência Reuters