Opinião – A democracia desperdiçada

”Por falta de educação, desperdiçamos cérebros; por falta de cuidados com a saúde, por causa da violência urbana e por horas no trânsito, desperdiçamos vidas.” Tanto quanto as pessoas, as nações também cometem pecados. A Europa cometeu o pecado do colonialismo sobre os povos africanos e ameríndios; os Estados Unidos promoveram guerras, usaram a bomba …

24/06/2016 11:07



”Por falta de educação, desperdiçamos cérebros; por falta de cuidados com a saúde, por causa da violência urbana e por horas no trânsito, desperdiçamos vidas.”

Tanto quanto as pessoas, as nações também cometem pecados. A Europa cometeu o pecado do colonialismo sobre os povos africanos e ameríndios; os Estados Unidos promoveram guerras, usaram a bomba atômica, implantaram ditaduras pelo mundo. O Brasil tem os pecados da escravidão, da desigualdade, da degradação ambiental e do desperdício.

Por todos os lados, percebem-se centenas de bilhões de reais gastos com obras inacabadas, pontes e estradas que vão do nada a lugar algum, caracterizando desperdício de dinheiro, recursos materiais, trabalho humano. Parte desses desperdícios vem de erros técnicos, a maior parte, da corrupção.
A dívida descontrolada também é uma forma de desperdício que rouba dinheiro de setores produtivos. Mas, no lugar de enfrentar essa dificuldade, equilibrando os orçamentos, temos cometido o pecado da ilusão financeira, gastando mais do que dispõem os governos e, em consequência, autoenganando-nos com o vício de desvalorizar a moeda para não adotar a necessária virtude da austeridade.

Ao negar educação de qualidade aos brasileiros, desperdiçamos historicamente a maior riqueza de um povo: temos 13 milhões de adultos analfabetos; no máximo, 20% de nossos jovens terminam o ensino médio com razoável qualidade; desperdiçamos a universidade, transformada em ilusória escada social para alguns dos que conseguem passar no vestibular, no lugar de fazê-la uma robusta alavanca para o progresso nacional.

Por falta de educação, desperdiçamos cérebros; por falta de cuidados com a saúde, por causa da violência urbana e por horas paradas no trânsito, desperdiçamos vidas.

Mais grave pecado é o desperdício da democracia. Em quase 30 anos, elegemos quatro presidentes: o primeiro foi afastado por impeachment, e a quarta está afastada para o julgamento de mais um impedimento.

Nessas quase três décadas, não conseguimos realizar os dois propósitos da democracia: aglutinar a população presente e conduzir a nação ao progresso futuro. Não construímos um projeto que permita colocar o Brasil entre as nações com elevado grau de civilização e civilidade, com economia eficiente, inovativa, produtiva, distribuindo renda com justiça, e em equilíbrio ecológico; uma sociedade sem pobreza, sem violência, com cidades bonitas, pacíficas, com eficiência em seus serviços, especialmente no transporte urbano.

Sem oferecer educação de qualidade para todos, não buscamos a possibilidade de nos transformarmos num celeiro de conhecimento científico e tecnológico, base do futuro. Mais grave: estamos desperdiçando nossa democracia num debate limitado à interrupção do mandato da presidente e sua substituição pelo vice escolhido por ela, sem fazer a discussão necessária sobre as mudanças e reformas fundamentais nos rumos do Brasil.

O maior de nossos desperdícios está na democracia sem ambição nacional, com torcidas no lugar de debates políticos, sem perspectiva de futuro, sem alternativas.

 

cristovam buarque
Por Cristovam Buarque é senador pelo PPS-DF.