Opinião – Nas peles da cebola do ”Lulécio”

”É tudo uma questão de ir despelando a cebola para entender por que, depois da delação de mega empresário, Emílio Odebrecht, Lula quer tanto falar com FHC.” Tomo de empréstimo o título da esplêndida autobiografia de Gunter Grass para descascar as peles da cebola de algo que havia muito me intrigava. No dia 12 de …

19/04/2017 12:57



”É tudo uma questão de ir despelando a cebola para entender por que, depois da delação de mega empresário, Emílio Odebrecht, Lula quer tanto falar com FHC.”

Tomo de empréstimo o título da esplêndida autobiografia de Gunter Grass para descascar as peles da cebola de algo que havia muito me intrigava. No dia 12 de setembro de 2002, quando o então governador de Minas Gerais, Itamar Franco, resolveu homenagear em Diamantina, com a Medalha JK, seu candidato a sua própria sucessão, Aécio Neves, do PSDB, e Lula, candidato à Presidência da República, pelo PT, o que mais se ouvia na cidade era uma expressão que ganhou dimensão nacional: “Lulécio”. Frente ao palanque oficial, montado junto à estátua de JK e ao lado do prédio do fórum, eu estranhava o quão distante Lula procurava ficar do candidato petista ao governo de Minas Gerais, Nilmário Miranda. E, em sentido contrário, como ele se sentia feliz cochichando algo com Aécio Neves. Tudo bem, pensei eu com meus botões: afinal, eles são os agraciados por Itamar Franco…

Horas mais tarde, porém, no comício do PT, realizado no largo Dom João, Lula praticamente só tratou dos temas que diziam respeito ao governo federal. Quem lá esteve há de se lembrar, por exemplo, de sua promessa de instalação de uma universidade federal que servisse às populações dos Vales do Jequitinhonha e do Mucuri. As referências ao candidato petista ao governo de Minas foram quase tão somente protocolares.

Hoje, extraídas algumas peles da cebola, pode-se supor, com riqueza de elementos, que o tal do Lulécio era algo bem mais significativo do que mera troca de gentilezas ou de complacência com os desejos de Itamar Franco. Lula e Aécio, creio eu, tinham, de fato, um interesse comum: neutralizar o poder de fogo do PSDB paulista. A tal ponto Lula se sentia agradecido que teria dito, anos mais tarde, num jantar na casa da jornalista Teresa Cruvinel, que, se Aécio fosse do PMDB, poderia cogitar em apoiá-lo para a sucessão presidencial. Só a gratidão pelo sucesso em Minas Gerais, fruto de bizarra parceria, pode explicar como políticos ligados a Aécio Neves ocuparam postos relevantes em diretorias dos Correios e de Furnas, já na gestão de Lula, até a erupção do mensalão. Ainda me lembro muito bem do depoimento de Airton Dipp, ex-presidente dos Correios, perante a CPI presidida por Delcídio do Amaral, em 2005, não sabendo explicar a razão pela qual um tucano mineiro ocupava um cargo de direção na ECT em pleno governo petista. Dizia ele que só sabia que a motivação era “política”…

Se articularmos os depoimentos de José Dirceu perante o juiz Sergio Moro e de Roberto Jefferson nos autos da Ação Penal 470, com a delação de Delcídio do Amaral sobre sua conversa com Lula, a bordo de um avião a caminho de Campinas, em torno das funções de Dimas Toledo em Furnas (lembram-se também de Delcídio interditando, manu militari, qualquer investigação sobre essa estatal na CPI dos Correios?), explica-se o que para Marcelo Odebrecht é incompreensível: a presença de aecistas no governo Lula. É tudo uma questão de ir despelando a cebola para entender por que, depois da delação de Emílio Odebrecht, Lula quer tanto falar com FHC.

 

 

Por Sandra Starling