Opinião – 2013: o ano que não acabou

‘Pandemia expôs nossa miopia; focamos em discutir o passado; não devemos buscar culpados; prioridade é salvar CPFs e CNPJs”, diz Marcos Abreu Torres O ano de 2013 não acabou, ainda estamos vivendo aquele clima de polarização e disputas irracionais que surgiram logo após as manifestações populares. Apesar de não ser algo inédito por aqui (ocorreu …

22/07/2020 00:23



‘Pandemia expôs nossa miopia; focamos em discutir o passado; não devemos buscar culpados; prioridade é salvar CPFs e CNPJs”, diz Marcos Abreu Torres

O ano de 2013 não acabou, ainda estamos vivendo aquele clima de polarização e disputas irracionais que surgiram logo após as manifestações populares.

Apesar de não ser algo inédito por aqui (ocorreu em outros momentos, a exemplo das disputas Vargas x Prestes e Arena x MDB), a novidade é que a divisão ultrapassou as fronteiras dos partidos e dos Poderes e tomou conta das mentes e corações das pessoas comuns.

Como sempre tivemos tendência de adotar modelos institucionais e comportamentais de outros países, é importante olhar para a história de um deles (EUA) e tentar vislumbrar um prognóstico nosso.

Os três momentos de maior polarização entre republicanos e democratas do norte deram-se na sequência de grandes crises: após 1929 (quebra da Bolsa de NY); entre 1960 e 1970 (movimentos em defesa de direitos civis, protestos contra a guerra no Vietnã e o caso Watergate); e mais recentemente em 2008 (bolha imobiliária).

Essas crises internas funcionaram mais como um solvente do tecido social do que um fator de agregação entre os polos opostos. Por outro lado, o país se uniu diante de ameaças externas, como nas grandes guerras mundiais e nos ataques do 11 de setembro. Ou seja, há uma percepção de que crise internas são mais danosas do que ameaças estrangeiras.

As melhores oportunidades aparecem nas crises: é hora de pensar como melhorar o país

As experiências norte-americanas mostram que a polarização parece estar se acentuando cada vez mais, e por aqui tudo indica que seguiremos no mesmo rumo. O radicalismo pode aumentar e deverá dar o tom na política por muito tempo ainda.

Uma das explicações para o agravamento da atual polarização política, aqui e lá, é que as relações se tornaram efêmeras e impessoais, fertilizando antipatia com o diferente. Alguns anos atrás, havia poucos canais, revistas e jornais, quase todos generalistas, trazendo visões de todos os matizes. Com as redes sociais, as notícias são geradas em tempo real, tudo ao vivo pulando em nossas telas. O excesso de informação e de opções não nos permitem mais refletir e nos induzem a filtrar apenas as fontes que mais nos agradam, ignorando outras opiniões.

Antes do mundo virtual, as pessoas se encontravam mais, havia o olho no olho e mais respeito. A conversa se transformava em um processo de negociação e aprendizagem. A blindagem do mundo virtual não nos permite mais perceber as emoções nem a linguagem corporal do outro, gerando falta de empatia, o que alimenta a polarização.

Paradoxalmente, tantas tecnologias e opções, ao contrário do que se imaginava, têm causado desconforto na sociedade. Estamos em estado de transe coletiva, nos dividindo continuamente, como placas tectônicas, com terremotos e erupções a qualquer hora do dia e da semana. O mal-estar não respeita nem mais o descanso noturno, fins de semana e feriados.

No momento em que mais precisamos de serenidade, estão todos jogando gasolina na fogueira. Não percebem que somente quem pode sair ganhando nessa balbúrdia é quem não tem nada a perder? E quem é que não tem nada a perder? Certamente não é o povo.

Os jogadores dessa disputa política são praticamente os mesmos desde 2013, eles apenas trocaram de camisas no intervalo (no mandato Temer). Ou pior, o líder do time que comandou o primeiro tempo pariu o capitão do time que vem dominando o segundo. Um gestou o outro, que saiu, como o Alien do filme, violentamente de dentro do peito do primeiro.

O pêndulo está balançando forte há pelo menos sete anos por aqui, e quanto mais balança, mais arriscado desabar. É preciso recalibrar as forças de ação-reação, que ora puxam o pêndulo para um lado, ora para o outro. Os fiéis da balança precisam mostrar logo as caras e não mais deixar o país a sangrar.

Não podemos nos dar o luxo de monopolizar as atenções na busca por culpados. Focar apenas nas disputas políticas que ocorrem em Brasília gera uma atmosfera paralisante e desagregadora. A prioridade agora é salvarmos CPFs e CNPJs.

Precisamos assumir que nenhuma autoridade tem o poder de mobilizar ou desmobilizar 210 milhões de pessoas. Afinal, somos uma República Federativa ou uma Monarquia Ditatorial? Onde estão nossos mecanismos de freios e contrapesos, nossas leis e instituições? Apontar o dedo para uma só pessoa é reconhecer que seu poder é supremo e isso efetivamente colocaria a democracia em risco. Nem a falta de patriotismo nos permitiria admitir isso.

Essa pandemia expôs nossa miopia: focamos em discutir o passado e nos perdemos no presente. Paramos de olhar para o futuro. O governo já era, seja daqui a dois meses ou dois anos? Como nos preparar, desde já, para a sucessão? Saberemos escolher? Teremos escolha? Faz tantos anos que não temos…

As promessas de 2013 foram anuladas pela polarização política que veio em seguida, gerando uma crise interna que hoje é mais nefasta do que a ameaça externa trazida pelo vírus.

As melhores oportunidades aparecem nas crises: é hora de pensar como melhorar o país, como atacar os problemas reais, a causa da causa da causa…

 

 

 

Por Marcos Abreu Torres, 40 anos, é advogado e mestre em Constituição e Sociedade