Opinião – Entre a paranoia e a inocência

14/09/2020 00:08

Principais jornais do Brasil subnoticiaram escândalos da Bayer: ”O surgimento do Q-Anon e a cumplicidade do silêncio”, salienta Paula Schimitt

Em uma passagem da obra-prima Morrendo de Distração*, o pensador e crítico cultural norte-americano Neil Postman compara a capacidade de profetização de 2 livros futuristas: 1984, de George Orwell, e Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Em 1984, as pessoas são controladas por um estado hipervigilante e opressor que não permite a ninguém sair da linha. Em Admirável Mundo Novo, as pessoas não precisam de opressão –elas mesmas aceitam o jugo da ignorância e passividade intelectual. Traduzo aqui o trecho em questão:

“Nós estávamos prestando atenção em 1984. Quando o ano chegou, mas a profecia não, norte-americanos ponderados cantaram loas a si mesmos. As raízes da democracia liberal tinham sido preservadas. Onde quer que seja que o terror tenha acontecido, nós, ao menos, não fomos visitados pelos pesadelos orwellianos. Mas nós tínhamos esquecido que, junto com a visão sombria de Orwell, havia uma outra –um pouco mais antiga, um pouco menos conhecida, mas igualmente assustadora: o Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. Ao contrário da crença majoritária até entre pessoas instruídas, Huxley e Orwell não profetizaram a mesma coisa. Orwell avisa que seremos dominados por uma opressão imposta de fora. Mas na visão de Huxley, não precisamos de um Grande Irmão para coibir nossa autonomia, maturidade e história. De acordo com ele, as pessoas vão aprender a amar sua opressão, e a adorar as tecnologias que desfazem sua capacidade de pensar.”

O artigo de hoje vai ser o 1º de uma série sobre esse desfazimento da capacidade de pensar, e sobre um tipo de estupidez voluntária que, concentrada em grupos de (des)pensamento semelhantes, ameaça a democracia e abala a efetividade do princípio da vontade da maioria. Em particular, essa série vai tratar do Q-Anon, a teoria da conspiração que está escorando com fervor quase religioso parte do apoio a Trump e Bolsonaro. Mas para tentar explicar a crença em coisas como Q-Anon, primeiro vou tratar de um fator que vem há tempos, por si só, facilitando a proliferação de teorias esdrúxulas: o silêncio da mídia sobre verdades assustadoras que ela é a última a reconhecer.

Não coloco toda a culpa na mídia, claro, nem na mídia toda. Teorias da conspiração podem ter várias motivações, inclusive psicológicas. Mas quando a mídia comercial –aquela oficializada por uma rede de publicidade, assinaturas e reverberação, e afiançada pelo respeito do Tempo– quando essa mídia se cala diante da verdade, ela dá um impulso involuntário a futuras teorias conspiratórias. Esse silêncio da imprensa “confiável” propulsiona teorias conspiratórias porque a mídia é a guardiã de uma sociedade democrática, e quando o guardião não guarda, e falha repetidamente na sua vigilância, você começa a suspeitar que ele está mancomunado com o ladrão. É esse sentimento que fomenta teorias da conspiração com mais eficiência do que a esquizofrenia: o descrédito generalizado naquele que deveria ser o porta-voz da verdade numa sociedade saudável. E em tempos de pandemia, teorias absurdas podem ter consequências drásticas.

Quem aqui já ouviu falar na teoria da conspiração que diz que a Bayer distribuiu plasma sanguíneo contaminado com o vírus da Aids? Tem gente que acredita em qualquer coisa, até em sangue com HIV vindo dos EUA para países pobres. Mas essa teoria não para por aí. Segundo os destrambelhados, a empresa alemã distribuiu o plasma contaminado sabendo que ele estava contaminado. As vítimas dessa atrocidade são os coitados de sempre –América Latina, China, países do terceiro mundo. Em outra teoria que também inclui a Bayer, a empresa teria ficado anos sem revelar o que já sabia sobre seu contraceptivo: que uma vez inserido nas trompas de falópio, as duas molinhas de metal saíam do lugar em que deveriam ficar, indo parar no útero ou abdômen e provocando dores absurdas, inclusive nas articulações e nas costas. Desenfreada, a teoria ainda alegava que esse contraceptivo fazia cair o cabelo, anestesiava partes do corpo, causava formigamento, hemorragia e –olha isso– provocava uma alergia ao níquel.

Outra teoria para fazer maluco dormir é a de que a Johnson & Johnson (isso mesmo, aquela marca que não deixa neném chorar nem com espuminha de xampu no olho) teria treinado pediatras para prescrever a crianças um remédio de úlcera para adultos. A criatividade dos zuretas da conspiração não tem limite. Segundo eles, isso teria acontecido porque alguém nessa história sem-pé-nem-cabeça teria descoberto que o remédio funcionava para uma outra função: fazer bebê dormir. A doideira chega a detalhes assustadores, inclusive dizendo que a empresa começou a fabricar o remédio com sabor de cereja pra facilitar a administração para crianças. Quase 100 pessoas teriam morrido com esse remédio assassino –inclusive bebês.

É óbvio que estou mentindo, mas para a surpresa de muitos, minha mentira aqui foi apenas em dizer que isso tudo é teoria da conspiração. Esses 3 casos são pura verdade, e foram devidamente denunciados, documentados e em certos casos indenizados (no caso dos contraceptivos defeituosos, a Bayer acaba de pagar nada menos que US$ 1,6 bilhão em indenizações). Mas você está perdoado se nunca ouviu falar deles –porque alguns desses casos jamais foram divulgados por alguns dos jornais “mais sérios” do Brasil.

O escândalo da Bayer é algo difícil de acreditar. Para quem quer ter uma ideia geral, esta página da Wikipedia está bem completa, com fontes excelentes.

A sequência de atos torpes é enorme, e listo aqui apenas alguns por falta de espaço: a Bayer foi informada que seu produto Factor 8 estava contaminando hemofílicos com HIV porque era feito com plasma de doadores contaminados, misturado ao estoque de plasma coletado pela empresa. A Bayer prometeu cancelar a venda do produto, mas não cumpriu. Por mais de 1 ano, ela continuou vendendo o plasma contaminado para países onde a empresa teria mais chance de escapar da Justiça. A FDA –a agência reguladora norte-americana– ficou sabendo desse descumprimento, mas como conta o New York Times (que fez uma investigação maestral e em 2003 revelou documentos assombrosos), o responsável pelo controle de produtos sanguíneos, Dr Harry M. Meyer Jr. pediu que a questão fosse “resolvida quietamente sem alertar o Congresso, a comunidade médica e o público”.

É isso mesmo, senhores.

Quando alguém lhes disser que uma teoria da conspiração é impossível porque ninguém ficaria tanto tempo sem saber do que acontece, mostre isso pra eles: desde 1984 já se tinha certeza da contaminação do sangue, mas só com uma investigação do New York Times EM 2003 foi revelado que a FDA escondeu o caso do próprio Congresso norte-americano.

Ali também foi revelado que oficiais de governos e ministérios da saúde em alguns países sabiam da contaminação e nada fizeram, ao contrário –continuaram comprando o sangue que contaminou milhares de hemofílicos com o HIV. E agora, a cereja no bolo para quem ainda não entendeu porque tanta gente acredita em tanta história aparentemente estapafúrdia: segundo o documentário Factor 8 – O Escândalo do Sangue na Prisão do Arkansas (que não consigo achar para comprar em formato digital e em serviços de streaming, mas que tem uma página na Wikipedia, uma página na IMDB, uma resenha na Varietye um trailer no Youtube, o plasma que a Bayer usava era em parte fornecido por prisioneiros com Aids e hepatite C das penitenciárias de Arkansas.

Enquanto a Folha e o Estadão publicaram algumas matérias sobre o escândalo da Bayer que podem ser encontradas nos sites de ambos os jornais, o site do jornal O Globo fingiu que nada aconteceu. Mas apesar de minhas pesquisas no site do jornal não encontrarem um único resultado sobre o assunto, o jornal de fato publicou uma matéria (ao contrário do que foi dito aqui na versão original deste artigo. Para quem se interessar em ver os resultados das pesquisas por palavras-chave, e a página do jornal com a matéria ausente no site, aqui estão. Eu achei, contudo, um artigo recente alertando sobre “bodes expiatórios” e “teorias conspiratórias”, principalmente no que diz respeito à Aids, que não tem uma única palavra sobre o escândalo da Bayer –o que não deve surpreender quem lê as exortações infantilizadas ali contidas (Aids não é um castigo divino, você sabia?).

Mas eu não culpo o historiador da Northwestern University pelo que espero seja apenas ignorância. A Bayer financia várias universidades, cátedras e estudos (como este, na própria Northwestern), e já está mais do que documentado que financiamentos privados podem ter influência direta no que se estuda, assim como a publicidade paga pode ter influência no que os jornais publicam. Este artigo do New Times, por exemplo, mostra como os produtores de açúcar conseguiram convencer a imprensa, inclusive a científica, de que a gordura (e não o açúcar) era o grande vilão na alimentação.

O caso do remédio para úlcera da Johnson também foi largamente ignorado –ao menos pelo O Globo. Minhas buscas na Folha e Estadão retornaram artigos sobre o assunto. No Globo: nenhum resultado encontrado. Não é impossível que minha pesquisa tenha usado um termo errado, ou que o jornal tenha feito um artigo sobre o assunto sem mencionar o ingrediente ativo (cisaprida) nem o nome do remédio (propulsid nos EUA, prepulsid no Brasil). Vou corrigir meu erro se erro ele foi.

Em julho deste ano, o excelente programa semanal da HBO conduzido por John Oliver que mistura comédia e notícias, (Last Week Tonight), teve um episódio sobre teorias conspiratórias em tempos de covid-19. Em um certo momento, Oliver cita algumas teorias que ele considera absurdas, envergonhantes até para quem nelas acredita. Uma delas envolve nada menos que a própria Bayer, sobre um rumor que surgiu em 1918 dizendo que a empresa alemã teria contaminado aspirinas vendidas no mercado norte-americano com o vírus da febre espanhola. Para quem não sabe nada, isso parece de uma imbecilidade sem tamanho. Para quem sabe um pouco mais, o rumor não é tão impossível assim.

 

 

 

 

Por Paula Schmitt é jornalista, escritora e tem mestrado em ciências políticas e estudos do Oriente Médio pela Universidade Americana de Beirute. É autora do livro de ficção “Eudemonia” e do de não-ficção “Spies”. Venceu o Prêmio Bandeirantes de Radiojornalismo, foi correspondente no Oriente Médio para o SBT e Radio France e foi colunista de política dos jornais Folha de S.Paulo e Estado de S.Paulo. Publicou reportagens e artigos na Rolling Stone, Vogue Homem e 971mag, entre outros veículos.

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