Opinião – Banana, a política e o mal da sigatoka

17/09/2020 13:07

“A vantagem da bananicultura cearense –nordestina em geral– reside na grande produtividade, conseguida pela elevada capacidade fotossintética”, diz Xico Graziano

Ao proibir a pulverização aérea de defensivos, o Ceará está aniquilando sua bananicultura. Pior. Aumentou o risco de intoxicação de trabalhadores. Mais ainda. Está prejudicando o meio ambiente.

Parece exagero, mas é a pura, e triste, realidade. A desastrosa decisão política, imposta pela lei estadual 16.820 (2019), abriu as portas do bananal para a devastadora sigatoka amarela, doença causada por um fungo (Mycosphaerella musicola) que destrói as lavouras. Os fruticultores cearenses fazem suas malas para mudar de estado. Vai aumentar a pobreza no Ceará.

Conheci de perto esse problema ao visitar a Tropical Nordeste, maior exportadora de bananas brasileiras para a Europa, Inglaterra principalmente. Situada em plena Chapada do Apodi, local de férteis solos em plena caatinga, a fazenda se aproveita dos canais de irrigação administrados pelo DNOCS. A água vem bombeada do rio Jaguaribe.

A Tropical Nordeste, também conhecida por Banesa, se estabeleceu há décadas naquela região especial. Seu foco é produzir banana nanica de qualidade para mercados exigentes. Por isso, precisa conduzir os pomares sob rigorosas normas de boas práticas agrícolas, bem estar social e proteção ambiental. Certificada pelos protocolos do Globalgap e da RainForest Alliance, a empresa rural conduz atualmente 300 hectares com fruticultura.

Adubação orgânica pesada, complementada com nutrição química mineral, garantem os frondosos bananais da Tropical. Alta tecnologia, agronomia de ponta. Curiosamente, porém, os cachos de banana, após serem colhidos, são retirados do pomar e levados ao packing house por meio de tração animal. Jumentos ecológicos.

A vantagem da bananicultura cearense –nordestina em geral– reside na grande produtividade, conseguida pela elevada capacidade fotossintética. Como o clima é árido, quase desértico, o segredo reside na irrigação. Molhadas por micro aspersores, as bananeiras da Tropical produzem, em média, 1,6 cachos por ano. No Vale do Ribeira, em São Paulo, grande região produtora da fruta, são necessários 13 meses para vingar um cacho.

Esse elevado potencial produtivo da bananicultura cearense está sendo jogado fora por uma espécie de esquerdismo misturado com ecologismo. Acontece que, ao impedir o controle fitossanitário por aviões, o mal da sigatoka atacou violentamente os pomares, destruindo suas folhas. Bananeiras produzem bons cachos de fruta, com 28 quilos, se mantiverem entre 10 a 12 folhas por pé; nas lavouras que percorri, inúmeras bananeiras estavam com 4 a 5 folhas, e os cachos, consequentemente, pequenos, pesavam menos de 17 quilos.

Acontece que essa doença vegetal se instala na parte de cima das folhas da bananeira. Assim sendo, seu controle é muito difícil se realizado por baixo, de dentro do pomar. Os pulverizadores operados por terra não conseguem distribuir as gotículas de fungicidas –ou agrotóxicos– sobre a plantação. Daí, a pulverização aérea se impõe. Em todo o mundo funciona assim.

A fruticultura do semiárido nordestino tem vantagens comparativas com os competidores mundiais. No Equador, por exemplo, maior produtor mundial de bananas, utiliza-se até 48 pulverizações aéreas para controlar o mal da sigatoka. No Vale do Ribeira (SP), ou em Minas Gerais, é necessário entre 10 a 15 pulverizações. A Tropical Nordeste sempre manteve uma média de, apenas, 3 pulverizações aéreas. Graças ao clima seco.

Proibidos agora, os aviões especializados foram substituídos por máquinas costais, manuais ou motorizadas. Resultado: nesta safra, a fazenda pulverizou até 9 vezes seus pomares de banana. Mas a sigatoka amarela lá está, fazendo estragos impressionantes. A tarefa dos trabalhadores rurais mostra pouca eficiência.

A Tropical está perdendo 100 mil quilos de banana por semana, em decorrência da doença nos pomares. Cachos pequenos, pencas miúdas, perdem valor no mercado, seguindo para tachos onde virará bananada caseira. A responsabilidade social da empresa impede que se jogue fora a fruta descartada.

Paradoxalmente, a medida governamental que imaginava reduzir o uso de agrotóxicos favoreceu seu maior consumo. Quando realizada por aviões, apenas 4 pessoas, em 3 horas por dia, conseguiam dar conta de aplicar toda a calda de fungicida nos pomares. E se utilizava 20 a 25 litros/calda por hectare. Repetindo: em 3 vezes por ano.

Nas condições atuais, sem aviões, existem 8 pessoas, trabalhando todo o dia, durante 6 meses da safra, pulverizando os pomares. O consumo de calda fungicida bateu nos 200 litros/hectare, ou seja, dez vezes mais que a pulverização aérea. Mesmo assim, com baixa eficiência no controle do terrível fungo.

A esdrúxula proibição recebeu contestação de inconstitucionalidade. A ADIN se encontra no STF, nas mãos da ministra Carmem Lúcia. O que pedem os fruticultores? Que se normatize, e fiscalize, rigorosamente, a correta aplicação aérea. Aviões, ou drones, bem manejados, são eficientes e seguros no trato fitossanitário de lavouras. Fazer bem feito, jamais impedir.

Prezada ministra. Preste atenção nesses dados que coletei em campo. Proibir a pulverização aérea no Ceará piorou a situação. Para todos. Gasta-se mais agrotóxicos, coloca-se em perigo os trabalhadores e traz prejuízo aos fruticultores.

Ninguém ganhou. Todos perderam.

 

 

 

 

Por Xico Graziano, 67, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano.

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