Opinião – É hora de Guedes dizer que o mundo vai acabar

”Se Guedes não assumir essa responsabilidade, ele se verá montado sobre uma crise fiscal e social, com país sem crescimento e sem confiança externa”, diz autor

03/11/2020 14:30



Culpar governo antecessor não funciona mais
Não existem saídas populares, pondera Traumann

Corre uma piada em Brasília que ao tomar posse no Ministério da Economia/Fazenda, o novo ministro encontra uma caixa sobre a mesa de jacarandá do 5º andar do prédio com o recado apenas ser aberta em momentos de crise. Ao abrir, o ministro descobre dentro da caixa três cartas.

A primeira diz: “culpe o antecessor”. Ato contínuo, o ministro sai dizendo que tudo está dando errado por erros e defeitos das administrações passadas. A tática do “quando cheguei já estava quebrado” funciona e dá ao ministros alguns meses de paz. Mas, como sói acontecer no Brasil, crises rebrotam feito orelhas-de-pau depois da chuva. Chega a hora de abrir a segunda carta. Ela diz: “diga que o mundo vai acabar”.

Ministro da Economia há 22 meses, Paulo Guedes passou parte da sua gestão baseada na primeira carta. É hora de adotar o segundo conselho. O Brasil vai mal. Estamos há 7 anos seguidos com déficits fiscais e a dívida pública vai fechar o ano perto dos 100% do PIB. A rolagem da dívida está cada semana mais difícil, obrigando o Tesouro a encurtar os prazos de pagamento. Entre janeiro e abril do ano que vem, União terá de pagar R$ 643 bilhões em títulos, o equivalente a 15,4% de toda a dívida interna brasileira. Em um sinal de desconfiança, investidores estrangeiros devem retirar R$ 124 bilhões até o fim do ano, segundo estimativa do Institute of International Finance. O real é a moeda que mais se desvalorizou no mundo neste ano.

Lógico que nem Paulo Guedes nem Jair Bolsonaro são culpados sozinhos pela situação. Mas essa desculpa já se perdeu na primeira carta. É hora de parar com o otimismo pueril. Para começar, eles poderiam parar de falar de retomada em V e dos trilhões que serão arrecadados em privatizações que não saem. É hora de dizer que o mundo está acabando.

O Brasil está sob o risco de repetir a desancoragem fiscal de 2015/16 porque as suas autoridades não param para debater a prioridade do momento, encontrar as condições para manter o auxílio emergencial sem estourar as contas públicas. O programa impediu que a panela de pressão social explodisse no início da pandemia de covid-19, beneficiou 67 milhões de pessoas, mas não tem como prosseguir neste tamanho. É preciso remodela-lo para impedir que em janeiro ele seja extinto e milhões de brasileiros fiquem sem renda de uma hora para outra. É loucura achar que existe crédito para fazer mais dívida e prorrogar o auxílio emergencial do tamanho que está, mesmo que por poucos meses.

Não há saída popular. O auxílio emergencial é fiscalmente sustentável apenas se (1) houver cortes em programas sociais menos eficientes, como o abono salarial, (2) aumento de impostos sobre os mais ricos e (3) algum tipo de reforma sobre os gastos com servidores, incluindo os do Judiciário. O resto é parolagem.

Convencer o Congresso e a sociedade de que é preciso apertar o cinto de todos é o desafio que diferencia ministros da Fazenda/Economia de primeira linha dos da série B. Não dá para esperar o fim das eleições municipais e o presidente parar de discursos antivacina. O Brasil precisa de todas as vacinas disponíveis para uma retomada segura do trabalho e do ano letivo. O Brasil precisa de um acordo mínimo no Congresso para manter o auxílio emergencial com um mínimo de responsabilidade fiscal e impedir que tudo que foi feito em 2020 tenha sido apenas o adiamento de uma explosão social.

Se Guedes não assumir essa responsabilidade, ele se verá montado sobre uma crise fiscal e social, com país sem crescimento e sem confiança externa. Ficará mais perto o dia no qual ele abrirá a terceira carta. E nela estará escrito “escreva três cartas para o seu sucessor”.

 

 

 

 

Por Thomas Traumann, 53 anos, é jornalista, consultor de comunicação e autor do livro “O Pior Emprego do Mundo”, sobre ministros da Fazenda e crises econômicas. Trabalhou nas redações da Folha de S. Paulo, Veja e Época, foi diretor das empresas de comunicação corporativa Llorente&Cuenca e FSB, porta-voz e ministro de Comunicação Social do governo Dilma Rousseff e pesquisador de políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp).