Opinião – Cacauicultura está dando a volta por cima de sua maior estratégia

“Galhos infectados com a doença foram descobertos amarrados em plantas sãs de fazendas conhecidas daquela região. Comissão de Sindicância, do Ministério da Agricultura, em relatório datado de 28 de dezembro de 2006, aponta os nomes dos suspeitos, todos funcionários da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac)”, diz Xico

24/11/2020 14:40



Doença atacou cacauais baianos
Em 5 anos, a produção caiu 75%
Houve 1 ato humano deliberado
Investigações comprovaram

A saga do cacau no Brasil esconde um terrível episódio: a introdução criminosa da vassoura-de-bruxa no Sul da Bahia. Se Jorge Amado fosse escreve-lo, seria seu maior drama. Uma traição contra a agricultura.

Descoberta em 1989, a doença, causada por um fungo, atacou violentamente os cacauais baianos sombreados pela Mata Atlântica. Em 5 anos, a produção caiu 75%. De maior produtor e exportador, o Brasil se tornou importador de cacau. Das 225 mil toneladas que a indústria está processando nesta temporada, 43 mil se originaram na Costa de Marfim, África.

As investigações oficiais sobre a chegada da vassoura-de-bruxa comprovaram que houve um ato humano deliberado. Galhos infectados com a doença foram descobertos amarrados em plantas sãs de fazendas conhecidas daquela região. Comissão de Sindicância, do Ministério da Agricultura, em relatório datado de 28 de dezembro de 2006, aponta os nomes dos suspeitos, todos funcionários da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac). Pagos para proteger, eles destruíram, traíram, a cacauicultura baiana.

Dois motivos se imputam aos criminosos:

a) punir os produtores tradicionais de cacau, quebrando suas pernas, para assim forçar o avanço da reforma agrária na região;

b) criar um enorme problema fitossanitário, visando tornar imprescindível a ação da Ceplac, órgão governamental que lhes pagava os salários, ameaçado de extinção na época.
Quem tornou pública a trama é um dos participantes – Luiz Henrique Franco Timóteo – réu-confesso do maior crime cometido contra a agricultura do mundo. Tudo é conhecido, anotado, fotografado, relatado. Ninguém foi punido. O governo Lula acobertou a safadeza.

Passados 30 anos, a cacauicultura nacional tenta dar a volta por cima. Novas variedades de cacau, tolerantes à vassoura-de-bruxa, foram introduzidas. Podas e tratamentos fitossanitários se tornaram usuais. Novos sistemas de produção, destacando-se o SAF (sistema agroflorestal) que integra a lavoura do cacau com o cultivo da seringueira, passaram a ser utilizados.

A modernização tecnológica da cacauicultura derrubou um mito, o de que o cacaueiro precisa de sombra para produzir, e por essa razão sempre foi plantado por debaixo da floresta, no sistema chamado de “cabruca”. Além do SAF, plantios solteiros de cacau, realizados à pleno sol, avançam com resultados animadores. É sensacional.

Na Ouro Verde, uma pequena e moderna cooperativa situada no município de Igrapiúna (Ba), a média de produtividade dos cacauais se situa em 100 arrobas por hectare, cerca de 6 vezes superior àquela verificada na região do Sul da Bahia. Sombreadas em parte por seringueiras, mecanizadas, as lavouras dos cooperados incorporam tecnologia com sustentabilidade, revigorando a cacauicultura brasileira.

Em sua saga, o cacau também caminhou para mais longe, deixando de ser uma exclusividade da região de Jorge Amado. Em 2017, o estado do Pará ultrapassou a Bahia no ranking nacional de amêndoas de cacau. Ambos agora se alternam na liderança, como se fizessem uma corrida no progresso agrícola. E o Espírito Santo também entrou na briga da produção.

Ao percorrer, nesses dias, a região Sul da Bahia, aprendendo sobre o passado e o presente do cacau no Brasil, descobri outro mito, originado nos romances de Jorge Amado: o de que os antigos fazendeiros do cacau eram grandes latifundiários. A história parece ser diferente.

Um documento intitulado “O cacau na Bahia antes da Ceplac”, escrito em 1956 por Paulo Alvin, técnico do IICA/OEA, relata que as fazendas daquela época eram maiores que as de antigamente, pois com a baixa de preços ocasionada pela Primeira Guerra Mundial, houve incorporação de propriedades. Mas o autor não oferece dados quantitativos.

Já no Plano de Recuperação da Lavoura Cacaueira da Bahia (PRLCB), iniciado em 1995, existem informações precisas. Participaram da terceira fase do Plano, obtendo financiamentos públicos, 2.292 produtores de cacau. Desses, 2.211 (96,5%) foram classificados como mini, pequenos e médios cacauicultores. Em termos de área, esses estratos menores de produtores, daqueles que tomaram financiamentos oficiais, respondiam por 76,6% das plantações de cacau. Dominavam a produção.

Segundo a Ceplac, o órgão público atendia, nessa época do PRLCB, cerca de 25 mil cacauicultores, enquanto que a área cultivada com cacau na Bahia somava 575 mil hectares. Ou seja, a área média dos produtores de cacau era de 23 hectares. Nada a ver com latifúndios.

Raramente se cultivavam grandes áreas, pois a região do Sul baiano é muito montanhosa, com chuvas intensas durante todo o ano. O transporte da colheita, sem mecanização, fica muito difícil e custoso. Grandes lavouras, semelhantes àquelas da economia canavieira ou cafeeira, foram exceção no ciclo histórico do cacau no Brasil.

Do ponto de vista agronômico, a cacauicultura está, finalmente, dando a volta por cima de sua maior tragédia. Resta a questão política-jurídica: um dia romperá a impunidade que protege os criminosos da vassoura-de-bruxa.

Tomara.

 

 

 

 

Por Xico Graziano, 67, é engenheiro agrônomo e doutor em Administração. Foi deputado federal pelo PSDB e integrou o governo de São Paulo. É professor de MBA da FGV e sócio-diretor da e-PoliticsGraziano.