Opinião – O balanço de uma temporada de incertezas

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21/12/2020 13:48



Economista-chefe da CNC avalia cenário
Diz que economia deve se recuperar
Defende austeridade fiscal do governo

Fachada da Foto: Sérgio Lima/PODER 360

Como largamente discutido até aqui, a pandemia fez empresas do comércio e serviços registrarem perdas históricas entre março e maio, em função das medidas imperativas de isolamento social. A queda na atividade do setor terciário durante a pandemia foi, no entanto, parcialmente revertida a partir de maio, e  já em agosto o índice de volume de vendas do varejo, por exemplo, havia retomado o nível pré pandemia. Mas o pior ficou para trás. O auxílio emergencial foi a chave para a recomposição da renda das famílias e manutenção de algum nível de consumo. Os R$ 293 bilhões pagos às famílias mais vulneráveis até o momento, de acordo com o Tesouro Nacional, deram o suporte à recuperação da economia em forma de V.

Durante 10 dos 12 meses de 2020, o Brasil vivenciou uma crise sem precedentes, e uma recuperação econômica tão rápida quanto suspeita pelos mais pessimistas. Apesar dos enormes desafios, a gestão econômica não deixou ninguém para trás, conseguiu socorrer consumidores e empresas, evitando explosão nos gastos com alívio de despesas e salários do funcionalismo público federal. Manteve ainda a taxa Selic no nível mais baixo da história, uma conquista que conservará a dívida pública abaixo de 100% do PIB esse ano.

Em 2020, vimos o maior fechamento líquido de postos de trabalho formais, pouco mais de 1,4 milhão de pessoas com carteira assinada foram dispensadas apenas entre março e maio. Mas a dinâmica de recuperação da atividade em setores como o comércio e a indústria fez esse quadro sombrio se reverter, ainda que com encerramento definitivo de empresas, o que naturalmente pode em alguma medida influenciar as estatísticas do Caged.

Pela ótica da PNAD, do IBGE, a inatividade também imperou durante os primeiros meses da pandemia, em que o isolamento impediu as pessoas de procurarem emprego. Com a flexibilização e a retomada das rotinas dos estabelecimentos, as pessoas estão à procura de oportunidades, o que presumivelmente fez a desocupação crescer à maior taxa da série histórica, atingindo 14,6% da população economicamente ativa no trimestre encerrado em setembro.

Apesar do desemprego elevado e da pressão negativa da crise sobre a renda das famílias, o rendimento médio do trabalho saltou de R$ 2.408,00 para R$ 2.554,00 entre o primeiro trimestre do ano e os meses de julho a setembro, segundo dados da Pnad. Não foi fácil para as empresas manterem os empregados com meses de atividades estagnadas.

A crise de saúde acelerou a transformação digital, em especial no comércio, em que empresas de todos os segmentos e tamanhos necessariamente precisaram inovar. Muitas delas buscaram a inovação aberta, e com isso já são capazes de apurar novas oportunidades e clientes, além de outras fontes de receitas, com diversificação e redução do risco do negócio.

Os estabelecimentos de pequeno porte precisaram buscar inserção digital para canalizar parte das vendas, tenha sido através das redes sociais, tenha sido pelos aplicativos. E o comércio eletrônico ganhou enorme destaque, as vendas diárias médias cresceram 44% entre abril e setembro, segundo dados da Receita Federal.

A agenda de competitividade e inovação nos meios de pagamento avançou rapidamente com a maior digitalização, com grande protagonismo do Banco Central também em sua função regulatória. O sucesso do PIX neste fim de ano marca os próximos passos na evolução dos arranjos de pagamentos, e de novos arcabouços tecnológicos como o open banking e adoção de uma moeda totalmente digital pelo Bacen. Esses avanços vão trazer largos benefícios a consumidores e empresas em 2021.

Nesse contexto, embora o desemprego ainda esteja alto e a desaceleração das vendas em setembro e outubro, o comércio deverá encerrar 2020 com crescimento do volume de vendas do varejo ampliado em torno de 3,5%.

Um ponto de incerteza recai sobre a capacidade de sustentação dessa retomada, dado que não há espaço fiscal para entrarmos em 2021 com mais calamidade e transferências diretas de recursos.  O consumo das famílias vai desacelerar com o fim do coronavoucher, o que deixará milhões de pessoas com orçamentos reduzidos já nesse fim de ano. A única garantia passado o dia 31 de dezembro é o Bolsa Família, que paga uma média pouco inferior a R$ 200,00 por beneficiário, e atinge aproximadamente 14 milhões de pessoas.

A pressão inflacionaria recente vinda dos alimentos, em especial, levará o IPCA a encerrar 2020 em aproximadamente 4,34%. No próximo ano a inflação deverá ceder, chegando a 3%, com menores pressões dos alimentos, capacidade ainda ociosa nos setores produtivos, e dólar bem comportado. Em conjunto, o encerramento do auxílio emergencial e incertezas na geração de vagas de trabalho no futuro próximo, podem continuar afetando a intenção de consumo das famílias e, consequentemente, o ritmo de recuperação das atividades do comércio ao longo do primeiro semestre do ano que vem.

Algumas saídas para esse nó podem ser antecipações de pagamento de benefícios e do 13º salário, como também diferimentos de tributos com impacto menos expressivo na arrecadação. Com a predominância de incertezas sobre a renda, o crédito também ganhará maior protagonismo em 2021 como condicionante do consumo. Mais gastos emergências terão de esperar uma evolução sustentada da economia por mais tempo.

Os dados mais recentemente divulgados sobre a atividade econômica sugerem que o crescimento da economia continuará, mas a passos mais lentos. O resultado de outubro do volume de vendas do varejo é um exemplo, segue mostrando recuperação, mas em ritmo menos acelerado.

Os tomadores de decisão nas empresas já sentem a desaceleração na atividade, em especial o comércio, mesmo em um momento sazonal bastante favorável ao setor, que são as festas de fim de ano. O índice de confiança apurado pela CNC juntos aos comerciantes no país vai encerrar o ano em queda, especialmente em função das expectativas para o curto prazo. O canal das expectativas para meses à frente em geral são os primeiros a mostrarem sinais de reversão.

A crise evidenciou ao empresário do comércio a importância do gerenciamento do seu negócio, e os últimos momentos do ano são primordiais para o planejamento financeiro das empresas no horizonte de 2021. Formação de estoques, mix de produtos e fornecedores, programação de compras, dentre outras decisões precisam estar em linha com a necessidade de capital de giro, tendo em conta a conjuntura, a capacidade da empresa em repassar custos, e dos consumidores em absorvê-los.

Embora estejamos no agravamento da crise da covid-19 no Brasil e em vários outros países, acompanhamos algo que não deixa de ser positivo: a corrida pela vacina no mundo. Esse movimento corrobora o consenso internacional, de que a vacinação em massa é a medida mais eficiente e capaz de recuperar as economias. O Natal chegará com a esperança trazida pelo início da vacinação em vários países, e que também chegará ao Brasil em breve.

 

 

 

 

Por Carlos Thadeu de Freitas Gomes, 72 anos, é economista-chefe da CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Foi presidente do Conselho de Administração do BNDES e diretor do BNDES de 2017 a 2019, diretor do Banco Central (1986-1988) e da Petrobras (1990-1992).