Opinião – A necropsia da política

Por Thomas Traumann

04/01/2021 13:20



Livros escancaram corrupção no Brasil
Odebrecht e Eike Batista têm histórias reveladas

”A Odebrecht (foto) era uma das 5 empreiteiras que faziam parte do cartel, desfeito em 2014”, recorda autor

Necropsias são procedimentos complexos. Mesmo quando o médico legista está informado da causa provável da morte, é necessário fazer um longo corte sobre a caixa torácica e o abdome para abrir e ter acesso aos órgãos internos. É tudo demorado, cuidadoso e capaz de revoltar os estômagos sensíveis. “A Organização” livro da jornalista Malu Gaspar, é a necropsia de uma empresa, a Odebrecht, e de um país, o Brasil. É difícil manter o estômago ou a cabeça em paz depois das 640 páginas.

Repórter de primeira linha, Gaspar é autora de outro best-seller sobre o pântano das relações entre o capitalismo e a política brasileira, “Tudo ou Nada”, sobre a ascensão e queda do empresário Eike Batista. Pela complexidade das transações e dos personagens, a teia que Gaspar costura para contar “A Organização” é mais sofisticada. Ela parte de uma história já conhecida, como a maior construtora brasileira virou pivô do escândalo de bilhões de dólares em propinas para centenas de políticos do Brasil e de quase toda América Latina, que tirou o PT do poder e ainda hoje faz balançar os governos do Peru. Milhares de reportagens já descreveram as relações carnais com o PT, a prisão de Marcelo Odebrecht, a delação dos 78 executivos, a disputa entre o pai, Emílio, e o filho, Marcelo, e o ocaso empresarial com a decretação da recuperação judicial. Mas tudo o que você já leu é como fazer a autopsia de um cadáver sem cortar. Só com o livro de Gaspar você vê as entranhas.

Aos 23 anos, Norberto Odebrecht, pai de Emílio e avô de Marcelo, criou a empreiteira nos anos 1940 a partir de uma empresa falida, com funcionários sem receber e obras paradas. Sabia que não existia negócio sem propina (ou “ajuda” já que a palavra propina não existe no dicionário odebrechtiano), mas dava aos auxiliares a ordem de que nunca pagassem tudo o que pediam: “Se tiver que pagar, negocie para reduzir à metade”. Recomendava também que avaliassem se o suborno estava encaixado numa “ética da responsabilidade” com os demais funcionários. Se sem o pagamento, a obra pararia e os funcionários pudessem sofrer, o escrúpulo estava liberado. “Entro na lama com os porcos, mas saio do outro lado limpo e de terno branco” repetia Norberto.

No livro de Malu Gaspar, a Odebrecht entra na lama com dezenas de políticos: José Sarney, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva, Dilma Rousseff, Michel Temer, Aécio Neves, Eduardo Campos, Antonio Palocci, Guido Mantega, Jaques Wagner, Fernando Pimentel, José Serra, Eduardo Cunha, Rodrigo Maia, Eduardo Paes, Geddel Vieira Lima, Renan Calheiros… a lista é interminável e inclui todos os partidos. Mesmo os procuradores da Operação Lava Jato não explicam sua falta de curiosidade sobre que a Odebrecht poderia contar sobre a corrupção no Judiciário e no Ministério Público. Ninguém sai de terno branco do outro lado da lama.

“A Organização” é uma história sobre mãos que lavam outras mãos que lavam outras mãos. É possível, portanto, ler o livro como um raio x da corrupção política dos últimos 50 anos, com especial vigor nos anos Lula e Dilma. Mas isso seria reducionismo. A corrupção é o novelo por onde a história caminha. Por vezes se tem a impressão de que os executivos da Odebrecht não faziam outra coisa a não ser subornar políticos e servidores públicos.

Da mesma forma, “A Organização” pode ser visto como o fracasso das diretorias de compliance, das agências de auditoria, dos manuais de conformidade e dos prêmios de melhor empresa do ano das revistas de negócio.

A Odebrecht estreou nos escândalos internacionais em setembro de 1978 quando a revista alemã Der Spiegel revelou como as usinas nucleares de Angra 1 e Angra 2, construídas no acordo entre Brasil e Alemanha, haviam quadruplicado de preço. Escolhida sem concorrência pelo então ministro das Minas e Energia, Calmon de Sá, seu ex-funcionário, e pelo então presidente da Eletrobras, o amigo Antonio Carlos Magalhães, a Odebrecht mantinha um contrato no qual recebia por mês. Quanto mais tempo demorava a obra, mais ela ganhava. Houve uma CPI que deu em nada. Como deram em nada os escândalos envolvendo a Norte-Sul (1988), PC Farias (1991), ministro Eliseu Rezende (1993), os anões do orçamento (1994), contrato de Paulínia (1997)… Parecia natural a Emílio e Marcelo Odebrecht que a Lava Jato fosse apenas mais um percalço. A demora para que os dois compreendessem que as circunstâncias eram distintas dos escândalos anteriores e amainassem as disputas internas que atrasaram a negociação com os procuradores de Curitiba custaram a sobrevivência da companhia.

Gaspar se supera ao contar a intrincada relação entre Emilio e o filho Marcelo. O primeiro é o engenheiro de almoços de quatro horas, capaz de enxergar já no Lula de 1985 o potencial de político a se aproximar. O segundo, um workaholic que triplicou a companhia de tamanho e deu ao sistema de corrupção protocolos de procedimento. O primeiro charmoso, o segundo de uma objetividade beirando à má-educação. Da relação difícil entre os dois, Malu Gaspar conduz o leitor pela expansão continental da empresa até a derrocada amarga, onde as heranças deixadas por uma das famílias símbolo do capitalismo brasileiro são culpas e ódios.

 

 

 

 

Por Thomas Traumann, 53 anos, é jornalista, consultor de comunicação e autor do livro “O Pior Emprego do Mundo”, sobre ministros da Fazenda e crises econômicas. Trabalhou nas redações da Folha de S. Paulo, Veja e Época, foi diretor das empresas de comunicação corporativa Llorente&Cuenca e FSB, porta-voz e ministro de Comunicação Social do governo Dilma Rousseff e pesquisador de políticas públicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Dapp).