Opinião – Polarização: luta do bem contra o mal

O que faz mal ao espírito democrático é a destruição visceral de perfis, o ataque pessoal, o radicalismo, abrindo espaços para a devastação de imagens e identidades. Escreve Gaudêncio Torquato.

24/01/2024 05:28

“A polarização tende a acirrar os ânimos eleitorais nos próximos meses”

Arquivo JCS.

A polarização tende a acirrar os ânimos eleitorais nos próximos meses. Desde a chegada de Jair Bolsonaro ao assento presidencial no Planalto, em 1º de janeiro de 2019, o radicalismo de posições ganhou volume na esteira das bandas que, há tempos, dividem o país. O lulopetismo, desde a criação do PT em 1980, tem ocupado a parte esquerda do arco ideológico, tendo desfraldado, ao longo de anos, a bandeira vermelha com a estrela que emoldura sua imagem.

A ponta direita, por falta de líderes comprometidos com as temáticas em defesa de valores conservadores, principalmente aqueles identificados com a família, permaneceu desocupada.

Até começar a abrigar contingentes esparsos, que enrustiam um discurso em favor do golpe militar de 1964. Poucos davam as caras, com pouca disposição de elevar a voz, temerosos de enfrentar a crítica social. Já o meio do traçado ideológico, ao receber e despachar partidos políticos, carimbava o espaço com a grafia de “ônibus”, veículo onde “viajantes” ingressam em uma estação e pulam fora em outra.

Tal conformação ficou gravada na consciência nacional. O fato é que a matriz do discurso político em nossos trópicos passou anos a fio sem colar em doutrinas, com exceção de periódicas manifestações do petismo em favor do socialismo, e o recorrente refrão “NÓS E ELES”, a dar ideia de que o país possui uma linha divisória entre o Bem e o Mal.

Ao contrário do que imaginavam as lideranças do PT, a repartição tão proclamada acabou gerando uma onda antipetista que se espraiou pelo território, obrigando o partido a puxar seu discurso para o centro.

E assim, nos últimos tempos, começamos a ver um PT social-democrata, ao estilo PSDB, buscando apoio dos núcleos centrais, sob a desconfiança da poderosa classe média de que o lulopetismo, encarnado na figura de Luiz Inácio Lula da Silva, manuseia todas as cartas do baralho, dando “uma no cravo” e “outra na ferradura”.

Ou seja, Lula não perde a oportunidade de execrar os grupos que, em sua visão, são responsáveis pelas mazelas nacionais. Mas cultiva o apoio desses setores.

Dentro dessa paisagem, nasceu e se desenvolveu um partido de indignados e revoltados contra a pregação messiânica do “pai dos pobres”. Um agregado que reúne antilulistas, antissocialistas, anticomunistas e, de certa forma, polos revoltados contra o status quo. O campo para atração dessa massa à procura de um líder fez florescer o bolsonarismo.

O capitão reformado do exército tinha uma das piores imagens da galeria política, eis que espargia ódio contra qualquer perfil identificado com a “esquerda”. Chegou a um ponto que, ultrapassando os limites da ética, agrediu uma deputada petista, Maria do Rosário (RS), com a declaração estapafúrdia: “não estupro porque você não merece”. Nessa época, era a voz que defendia os anos de chumbo no Parlamento.

Saiu do fundão do plenário na Câmara para a cadeira principal do poder, o assento presidencial no Palácio do Planalto. Jair Bolsonaro, um militar quase expulso das Forças Armadas, é, pois, fruto da árvore antipetista que floresceu no país. E o que aconteceu no arco ideológico? Os contingentes de direita, ainda com feições meio encobertas, se juntaram aos revoltosos, aos núcleos antipetistas, e passaram a se fazer presentes no cenário institucional. O território das ideias foi ocupado por um discurso conservador.

A temática do aborto, a ideologia de gêneros, a educação sexual nas escolas, o armamento da população, a privatização de empresas estatais, entre outras polêmicas, entraram na fogueira do debate.

Agora, a defesa e o ataque radical de posições de esquerda e direita começam a esquentar o ânimo social. A polarização no plano das ideias até poderia fazer bem por representar o ideal democrático de enfrentamento dos contrários. O que faz mal ao espírito democrático é a destruição visceral de perfis, o ataque pessoal, o radicalismo que produz o ódio, abrindo espaços para a devastação de imagens e identidades. Esse será o escopo do discurso que nos espera.

Ao fundo da paisagem, as correntes eleitorais se atacarão, cada qual vestindo as cores do Bem contra o Mal. Queira Deus que o bom senso respingue sobre a consciência dos cidadãos, aplainando as paixões e elevando a racionalidade.

 

 

 

 

Por Gaudêncio Torquato é jornalista e escritor.

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