Investir em projetos inovadores com foco sustentável é um caminho de longo prazo. Escreve Jackeline Bozza e João Ricardo de Freitas.
02/04/2025 09:48
“A indústria é um exemplo que ativamente busca novas soluções para atingir esse objetivo.”

Ilustrativa.
A implementação de iniciativas relacionadas à sustentabilidade tem se tornado cada vez mais imperativa em todos os âmbitos da sociedade. No mundo corporativo, isso vem deixando de ser encarado como um apelo comercial, passando a ser um dos principais focos do planejamento estratégico das empresas. A partir destas demandas crescentes por práticas ligadas à sustentabilidade e à agenda ESG (governança ambiental, social e corporativa), a inovação é tida como fator chave para alavancar esse processo.
O conceito de inovação para empresas sustentáveis não se restringe apenas a produtos ou serviços. Ele também envolve a revisão de processos, modelos de negócios e como as organizações interagem com o meio ambiente e a sociedade. Nesse sentido, cada vez mais os empreendimentos buscam por inovações que proporcionem ganhos aos resultados dos negócios, fazendo isso com transparência e responsabilidade ambiental e social.
Partindo do princípio de que os recursos naturais são finitos, toda a cadeia global de suprimentos é suscetível e vulnerável a qualquer tipo de escassez ou diminuição de insumos e matérias-primas. Deste modo, todo e qualquer empreendimento deve estar atento às alternativas sustentáveis cujo desfecho seja mitigar riscos à sua operação.
De maneira geral, o estudo “International Business Report”, divulgado em 2025, indica que 80% das empresas brasileiras participantes têm intenção de investir em ações voltadas para boas práticas de ESG.
A indústria é um exemplo de setor que ativamente busca novas soluções para atingir esse objetivo. Para se ter uma ideia, a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) aprovou R$ 22,3 bilhões em recursos de instituições governamentais apenas em 2024 para projetos de inovação na área industrial. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por sua vez, teve R$ 11,1 bilhões aprovados para a mesma finalidade no último ano.
Inovação para empresas sustentáveis em 2025
Um dos principais dilemas enfrentados pela geração atual é conciliar produção e preservação ambiental, principalmente no que diz respeito ao desmatamento, às emissões de poluentes e ao uso irracional de recursos naturais. E é exatamente nesse ponto que a inovação oferece um horizonte de novas possibilidades para contribuir com a redução dos impactos ao meio ambiente. Isso envolve desde projetos que desenvolvam insumos e matérias-primas cuja utilização gere menos consequências à natureza, podendo abranger o uso de resíduos que podem ser manufaturados e transformados em matéria prima, até eficiência hídrica e energética.
Considerando os desafios atualmente enfrentados pelas organizações para inovar, a principal tendência observada para solucioná-los é a análise de todos os processos internos da empresa. A partir desse diagnóstico e entendendo os pontos mais relevantes para dar início a um portifólio de projetos com pegada ambiental, faz-se necessário organizar um fino gerenciamento, com foco a longo prazo, permitindo a compreensão e o planejamento harmônicos sobre maturidade tecnológica e retorno financeiro.
Nesse sentido, embora a sustentabilidade frequentemente seja mais relacionada à produção, especialmente nas indústrias, investimentos em projetos de sustentabilidade devem ser pensados de maneira integrada pelos principais departamentos da empresa. Para um portfólio de inovação em sustentabilidade ter sucesso, o apoio de diretorias de área correlatas ou de backoffice é essencial.
Apoio à inovação
Planejar aportes financeiros de qualquer tipo requer uma análise minuciosa dos riscos em comparação ao retorno de investimento (ROI) por parte das empresas, bem como dos mecanismos aos quais elas podem recorrer para fomentar a inovação com fins sustentáveis.
Dessa forma, incentivos fiscais à inovação são ferramentas que podem ajudar a mitigar riscos financeiros e, por consequência, tecnológicos em projetos envolvendo sustentabilidade. A Lei do Bem, por exemplo, é um desses instrumentos de planejamento para companhias que querem investir em inovação com foco em práticas ligadas ao ESG.
Como política de estímulo à Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), a Lei do Bem permite que uma empresa recupere até 34% dos gastos com essa finalidade. Essas despesas podem ter diferentes naturezas, como Recursos Humanos, contratação de empreendimentos especializados que podem trabalhar em regime de cooperação tecnológica e parcerias com institutos de ciência e tecnologia (ICTs).
Existem, ainda, os Programas e Projetos Prioritários de Interesse Nacional (PPIs), instituídos na década de 1990 e que permitiram a criação de um modelo de incentivos ao setor industrial, condicionado à exigência de contrapartida de investimento em PD&I, incluindo a obrigação de realizar projetos de PD&I em parceria com Universidades e Institutos de Pesquisa.
No âmbito da Lei de Informática (ou Lei de TICs), as organizações podem destinar parte de sua obrigação em PD&I para os programas prioritários credenciados, escolhendo onde alocar esses recursos. A Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii) é um exemplo de iniciativa com essa finalidade. Isso possibilitou o investimento de R$ 792 milhões em 411 projetos de tecnologias limpas para descarbonização e transição energética, o que reforça o foco em impulsionar soluções sustentáveis nas companhias.
Ainda nesse contexto, o Programa Mobilidade Verde (Mover) instituiu a criação do Fundo Nacional de Desenvolvimento Industrial e Tecnológico (FNDIT), com o objetivo de captar recursos para apoiar financeiramente os programas prioritários de desenvolvimento industrial, científico e tecnológico.
Projetos que recebem benefícios fiscais
Existem diversos tipos de projetos ligados à sustentabilidade que podem gerar benefícios fiscais às empresas. Reciclagem, utilização de energias renováveis, preservação ambiental e créditos de carbono são exemplos de áreas que recebem apoio via legislações.
Negócios que desenvolvem inovações relacionadas a esses temas podem acessar recursos como incentivos e deduções fiscais, linhas de crédito com taxas reduzidas, redução ou isenção de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e descontos no Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) para imóveis que adotam práticas sustentáveis.
A obtenção desses benefícios é fundamental para garantir a inovação em empresas sustentáveis. Por isso, aquelas que são assessoradas por uma consultoria especializada que entende o funcionamento dos diferentes tipos de incentivos possuem um diferencial competitivo extremamente relevante, pois, com a utilização segura e eficiente destes mecanismos, é possível mitigar riscos financeiros e tecnológicos e proporcionar ganhos gerenciais, culminando na melhora simultânea dos resultados financeiros e sustentáveis.
Desta forma, investir em projetos inovadores com foco sustentável é um caminho de longo prazo e que apresenta uma diversidade de desafios em momentos e camadas diferentes deste processo. A utilização estratégica de mecanismos de incentivo à inovação, por meio de assessoria especializada, é fator determinante para que as empresas estruturem, de forma harmônica e mútua, iniciativas benéficas tanto para o cumprimento de metas ESG quanto ao negócio como um todo.
Por Jackeline Bozza (Gerente de Produtos) e João Ricardo de Freitas (Líder de Planejamento Estratégico) fazem parte do FI Group, consultoria especializada na gestão de incentivos fiscais e financiamento à Pesquisa & Desenvolvimento (P&D).